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  • Buscarita | Maternidades clandestinas

    Maternidades clandestinas Como foi possível nascerem crianças nesse lugar? Quem hoje passa pelo número 8151 da Avenida del Libertador, em Buenos Aires, sente que ali há algo a ser notado. Uma atmosfera escondida por trás de muitos prédios que atualmente abrigam organismos e instituições ligadas aos direitos humanos. Um clima carregado de memória, verdade e justiça para os que conhecem ao menos um pouco da história do lugar onde funcionou a antiga Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Foi lá que, entre 1976 e 1983, militares mantiveram presos, torturaram e mataram cerca de 5 mil homens e mulheres. Onde planos de sequestro, extermínio e execução eram traçados e de onde saíam grande parte dos vuelos de la muerte – método de execução adotado pelo regime militar argentino que consistia em jogar, de um avião, homens e mulheres atados a pedras em direção ao mar. Onde bebês nascidos em cativeiro eram separados de suas mães logo após o parto, que encurtava a sobrevida das mulheres que eram parcialmente poupadas para darem à luz. Ana María Martí foi sequestrada em 18 de março de 1977 e passou quase dois anos presa na ESMA, onde esteve submetida a condições subumanas, torturas e trabalho forçado. Recuperou sua liberdade em 15 de dezembro de 1978 e foi uma das testemunhas de julgamentos de crimes cometidos durante a ditadura. Em 2011, durante uma audiência que julgava o Plano Sistemático de Apropriação de Menores, Martí relatou que as grávidas eram mantidas vivas até o momento do parto. “Dentro da área das grávidas começaram a tratá-las muito melhor do que quando estavam na capucha. Comiam melhor, estavam mais limpas, podiam tomar banho.” De acordo com Maria Alicia Milia, que também esteve presa por quase dois anos na ESMA, na capucha, a principal diferença era que as gestantes não usavam capuzes, mas óculos que as permitiam ao menos respirar. Posteriormente receberam colchonetes e camas de metal, mas, assim como as outras detidas, comiam um sanduíche com mate pela manhã, no almoço e no jantar. Apesar dos relatos de melhores tratamentos na área das grávidas, não existia garantia alguma do bem-estar de qualquer um dos presos. Afinal, estavam privados de sua liberdade e sofriam diferentes tipos de violência – quando mantidos vivos. Seja nas maternidades ou não, as mulheres que carregavam seus filhos foram sistematicamente submetidas a abusos, inclusive durante e após os partos, quando seus bebês eram imediatamente retirados de seus cuidados. As maternidades compunham um plano audacioso: o roubo sistemático dos filhos de desaparecidos. BEATRIZ GATTI BEATRIZ GATTI Esses bebês nunca mais veriam suas mães, mas a maioria deles também seria privada de uma vida inteira com suas famílias, irmãos, avós, tios e primos. Permanentemente separados. É essa a história da ESMA, um dos maiores e piores centros de detenção, tortura e extermínio registrados durante a ditadura militar argentina. Mas não o único. Também entre 1976 e 1983, espalhados por todo o país funcionaram outros 761 centros clandestinos dedicados à tortura e execução de militantes, estudantes, jornalistas, professores, religiosos e quaisquer outros enquadrados como “subversivos”. Equipes especializadas atuavam em locais nada preparados para operar uma parte importante do maquinário do regime: as maternidades clandestinas. Elas funcionavam em centros de detenção estratégicos para onde eram levadas cerca de 10% de todas as mulheres sequestradas, que estavam grávidas no momento da captura, de acordo com o relatório final da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep). Segundo depoimentos de alguns sobreviventes que testemunharam as condições da maternidade na ESMA, as gestantes recebiam melhor tratamento quando saíam da capucha – local em que os prisioneiros ficavam encapuzados, algemados pelas mãos e pés e isolados em cubículos – e eram enviadas ao setor das grávidas. “Estava grávida de oito meses. Primeiro eles me despiram completamente e checaram minha vagina, olharam meu ânus e começaram a me bater assim, nua como eu estava. Tentei proteger minha barriga o tempo todo e perdi a consciência.” Merita Susana Sequeira sobrevivente da ESMA “Eu, quando estava um dia na cela com os olhos vendados, de repente comecei a sentir meu filho se mover e, para mim, isso foi incrível. Era a vida no meio da morte. Era sentir que havia um lugar que eles não tinham conseguido alcançar.” Ana María Careaga sobrevivente da ESMA “No momento do parto, ela disse 'Não, não cortem o cordão, quero tê-lo comigo uns minutos a mais, senti-lo em cima de mim'. Sabia que iam separá-los e pelo menos ainda estava junto a seu corpo através do cordão umbilical e em cima de seu peito.” Sara Solarz sobrevivente da ESMA

  • Buscarita | Futuro das Abuelas de Plaza de Mayo

    Futuro Reproduzir vídeo Ao longo de 45 anos de luta, as Abuelas de Plaza de Mayo passaram por diferentes situações, sensações e estratégias. O Banco Nacional de Dados Genéticos foi a solução mais eficaz para ir ao encontro dos netos e incentivar que eles também buscassem as Abuelas. Muitas delas tiveram a felicidade de rever os filhos de seus filhos após anos de apropriação, enquanto tantas outras partiram sem alcançar o reencontro. A instituição teve importantes perdas com o passar do tempo, sendo as mais recentes as mortes da histórica integrante Alba Lanzillotto, em junho de 2022, e de Delia Giovanola, uma das 12 Abuelas fundadoras, um mês depois. As centenas de mulheres que outrora compuseram a organização hoje são representadas por quatro delas: Sonia Torres, Ledda Carreiro, Estela de Carlotto e Buscarita Roa, cujas idades entre 85 e 93 anos não as impedem de se manter na ativa. E o que o futuro reserva para as Abuelas de Plaza de Mayo? Segundo Buscarita, a passagem de bastão para os netos já está encaminhada, e a associação será deixada em muito boas mãos. Mas enquanto existir uma Abuela, é ela quem manda . ​ Envolvimento das famílias No comitê diretor das Abuelas de Plaza de Mayo, os netos restituídos já são maioria. Todas as terças-feiras são discutidas novas ideias e campanhas que deem prosseguimento à busca dos cerca de 370 netos desaparecidos. Os já recuperados acabam se envolvendo na luta por valorizarem a descoberta da verdadeira identidade, assim como aconteceu com eles. “Não é coincidência que a maioria dos netos tenha se dedicado a trabalhar em favor da justiça”, diz Victor Penchaszadeh, geneticista que participou do primeiro grupo que criou o índice de abuelidad . “Há alguns que dizem ‘bom, tenho esse compromisso porque tive os pais que tive, que estão desaparecidos’”, acrescenta. No caso do neto restituído Manuel Gonçalves Granada, seu primeiro envolvimento com as Abuelas foi a partir de uma produtora de publicidade que fazia peças audiovisuais e propagandas para televisão sob encomenda delas. “Depois, fui colaborando no que elas me pediam. Como eu podia contar minha história pessoal, e também do ponto de vista institucional, comecei a representar as Abuelas em muitos lugares”, conta ele, que trabalha na Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (CoNaDI), criada a pedido das avós em 1992. Outros colaboradores e organismos Também compõem o comitê diretor da instituição alguns outros familiares de desaparecidos, incluindo filhos que não foram apropriados e procuram por irmãos ou irmãs que nasceram em cativeiro ou foram sequestrados junto aos pais. A associação Abuelas de Plaza de Mayo tem ainda como base todos os colaboradores com quem foi criando laços ao longo dos anos de luta, como advogados, comunicadores, psicólogos e antropólogos que as ajudam no cotidiano e na organização das buscas. Além da transição geracional, o futuro das Abuelas está apoiado nos organismos criados por iniciativa delas. O Banco Nacional de Dados Genéticos vai continuar existindo mesmo depois das avós até que o último neto seja encontrado. A CoNaDI, importante canal para receber pessoas com dúvidas sobre sua identidade, é outro exemplo de ferramentas que ficam para a posteridade. Sociedade vigilante Mesmo com ondas de extrema direita, que tentam apagar ou questionar fatos históricos, a sociedade argentina é mais uma aliada conquistada pelas Abuelas. A conscientização de que a memória histórica e coletiva deve ser respeitada e mantida é parte do legado dessas mulheres – e também ajuda na construção de um futuro sólido. Reações diante de reduções de penas de já condenados por crimes durante a ditadura e pressão contra a impunidade são manifestações comuns e espontaneamente expressivas na Argentina. “Aqui há um grupo muito vigilante em relação ao que acontece com a justiça e os direitos humanos, que não se deixam pisotear”, afirma Victor Penchaszadeh. “Os heróis e heroínas são o povo organizado, são as Abuelas de Plaza de Mayo, são as Madres de Plaza de Mayo, são os cientistas que colaboraram e impulsionaram isso.” “Elas ficarão na memória dos que as conheceram, seguirão estando de outra maneira. Não com sua presença física, porque não são eternas, mas continuarão a partir do trabalho que fizeram.” María Elena Domínguez, psicóloga do Centro de Atenção Psicológica pelo Direito à Identidade, associado às Abuelas

  • Buscarita | Buscas das Abuelas de Plaza de Mayo

    Buscar até o último As detetives Depois das infrutuosas visitas a delegacias, quartéis, hospitais e igrejas, tanto as Madres quanto as Abuelas começaram a buscar seus filhos e netos por outros meios. Muitas recorriam a conhecidos que tinham contato com alguém que poderia ajudá-las fornecendo informações ou até intermediando encontros com autoridades. Mas elas não podiam contar com a boa vontade daqueles que governavam o país naquele momento. Então, deram início a suas próprias investigações. ​ As Abuelas incorporaram um verdadeiro papel de detetives. Além de interrogar vizinhos e potenciais testemunhas dos sequestros de seus filhos e netos, iam a escolas no horário de saída e se escondiam atrás de árvores ou carros enquanto procuravam por alguma criança que se parecesse com algum dos netos. “Outras avós fingiam ser vendedoras de produtos infantis. Tocavam a campainha e diziam: ‘Há um bebê nesta casa? Porque isso se usa assim…’. Dessa forma conseguiam dados e, em alguns casos, chegavam a ver a criança”, conta Nélida Navajas, avó que foi durante muitos anos secretária da instituição, no livro “La Historia de Abuelas”. “Estela [de Carlotto] propôs que formássemos equipes, e nós concordamos. Entrei em investigação. Deram-me uma câmera fotográfica e eu saía em meu Fiatzinho [Fiat 600]. No lugar indicado, levantava o capô do automóvel, como se tivesse algum defeito, e tirava fotos das crianças. Também conversava com as professoras e com as diretoras. Algumas me recebiam bem, outras, não. Às vezes me punham para fora da escola ou me perguntavam o que eu fazia com o carro em frente à porta, e eu lhes dizia que estava esperando minha neta.” Elena Opezzo ao livro “La Historia de Abuelas” CREATIVE COMMONS As primeiras denúncias de possíveis casos de apropriação vieram em papeizinhos que eram entregues a elas nas rondas da Praça de Maio. Um endereço e a informação de que um casal havia aparecido de repente com um bebê eram suficientes para que lá fossem as Abuelas tentar descobrir mais alguma coisa. ​ Elas foram formando dossiês de investigação com relatos de testemunhas, depoimentos de familiares, denúncias, fotos e todo tipo de documento que pudesse ajudar na busca. Esses arquivos eram compartilhados com autoridades e personagens públicos com o intuito de ampliar cada vez mais o alcance sobre o que estava acontecendo na Argentina. As primeiras restituições A localização das irmãs Tatiana Ruarte Britos e Laura Malena Jotar Britos, em março de 1980, trouxe o fôlego de que as Abuelas precisavam. Depois de uma denúncia, as Abuelas foram até o juizado de menores onde corria um processo de adoção para as duas meninas, de seis e três anos, respectivamente. Sob a guarda do casal Sfiligoy, as crianças foram reconhecidas por suas avós e, posteriormente, Tatiana também as reconheceu – três anos depois do sequestro que as separou da mãe. Os pais adotivos nunca negaram que Tatiana e Laura (ou Mara, como havia sido nomeada por eles) conhecessem sua história, e as crianças mantiveram seus vínculos biológicos. “A princípio, queria que Tati viesse morar comigo. Mas entendemos que Inés e Carlos haviam formado uma família e elas estavam bem”, contou certa vez a avó paterna de Tatiana, Amalia Pérez, que era sempre recebida de braços abertos na casa dos Sfiligoy. Casos como o de Tatiana e Laura, porém, foram raros. Tatiana Ruarte Britos Sfiligoy e Laura Malena Jotar Britos Sfiligoy, restituídas em março de 1980 ARCHIVO ABUELAS O mundo precisa saber Ainda em meio ao regime, as Abuelas tentavam disseminar sua luta com a ajuda de exilados e figuras de projeção internacional. Um dos nomes que abriu muitas portas foi Adolfo Pérez Esquivel. O pacifista e ativista de direitos humanos ganhou o Nobel da Paz em 1980 e recebeu uma missão especial para a viagem em que receberia o prêmio: “Chicha Mariani [uma das fundadoras das Abuelas] me disse: ‘Olha, tenho que falar com você. Se você vai se encontrar com o Papa, com o João Paulo II, você pode levar os relatórios sobre as crianças’. Eu disse a ela: ‘Bem, então me prepare’”, escreveu o professor no livro “La Convención sobre los Derechos del Niño en la Argentina”. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ O slogan “Aparición con vida”, adotado pelas Madres de Plaza de Mayo em dezembro de 1980, que definia a exigência feita pelas mães dos desaparecidos, foi incorporado também pelas Abuelas e outros organismos defensores de direitos humanos. O caso das crianças apropriadas chamou a atenção inclusive da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Concomitantemente às buscas, que nunca cessaram, as avós procuraram apoio na comunidade científica internacional para pedir por uma solução genética que as ajudasse. A saída foi adaptar a tecnologia dos testes de paternidade para criar o chamado índice de abuelidad , por meio do qual passaria a ser possível confirmar parentesco entre crianças e outros familiares além dos pais – incluindo pessoas de diferentes gerações, como os avós. A partir dali, era uma questão de tempo, pressão social e vontade política até que a revolução científica incentivada pelas Abuelas saísse do papel. Após o fim da ditadura, em 1983, todos os ingredientes estavam postos para a criação do Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), que aconteceu menos de quatro anos depois, em 1987. Dos 500 netos apropriados que calculam as Abuelas, 13 2 casos já foram resolvidos – e a grande maioria a partir das técnicas do Banco. Depois de criado, o órgão passou a receber amostras de sangue dos familiares que procuravam por algum dos filhos dos desaparecidos e até de pessoas que ninguém buscava, mas depois se descobriram netas das Abuelas . BEATRIZ GATTI 'Aparición con vida' foi um dos slogans defendidos pelas Madres e Abuelas de Plaza de Mayo no fim de 1980 Buscar e ser buscado ​ Gerar a dúvida. Essa foi a estratégia que as Abuelas adotaram já nos primeiros anos do BNDG e mantêm até hoje. Havia uma mudança de direção importante no processo de buscas: as crianças apropriadas estavam crescendo e virando adolescentes ou até adultos. Embora as investigações nunca tenham parado, o papel de detetive já não fazia mais sentido e era hora de pensar em maneiras que incentivassem os supostos netos a refletir sobre sua identidade e a buscar sua verdadeira origem. Você sabe quem você é? BEATRIZ GATTI

  • Buscarita | Sobre o tema

    Sobre o tema Livros, filmes e documentos para se aprofundar La historia de Abuelas Abuelas de Plaza de Mayo El padre en la apropiación de niños María Elena Domínguez Argentina 1985 (2022) Santiago Mitre 500 - Os Bebês Roubados pela Ditadura Argentina (2013) Alexandre Valenti Las Abuelas y la genética Abuelas de Plaza de Mayo Las viejas Madres de Plaza de Mayo Línea Fundadora A História Oficial (1985) Luis Puenzo 99,9% - La ciencia de las Abuelas (2012) Canal Encuentro Ciencia x la identidad Banco Nacional de Dados Genéticos La Convención sobre los Derechos del Niño en la Argentina Carla Villalta e Soledad Gesteira O Dia em que Eu Não Nasci (2011) Florian Cossen Pañuelos para la Historia (2015) Alejandro Haddad e Nicolás Valentini La biografía de Estela de Carlotto Javier Folco No nos han vencido Luis Zarranz La Casa de los Conejos (2021) Valeria Selinger Secreto a Voces (2018) Misael Bustos Confira a lista de referências utilizadas no projeto

  • Buscarita | Legado das Abuelas de Plaza de Mayo

    Legado Como isso é possível? Se mataram os filhos destas senhoras, muitas delas enfrentaram situações horrorosas, há mais de 30 anos as estão despistando, com um Estado que virou as costas, com todos os problemas, com a incompreensão da sociedade, com acusações terríveis… E você vê que estão alegres… ​ O que acontece é que esse objetivo [de buscar] é como uma missão herdada de seus filhos. É como se eles tivessem dito: 'deixo isso com você, procure e resolva'." ​ Remo Carlotto é irmão de Laura Carlotto, sequestrada e assassinada pelos militares em 1977, e filho de Estela de Carlotto, presidente das Abuelas de Plaza de Mayo Uma herança de luta As Abuelas levaram muito a sério a tarefa de buscar seus netos. Divulgaram pelo mundo o que se passava na ditadura argentina, conquistaram boa parte da opinião pública, revolucionaram a genética e criaram um legado de luta com a qual muitas delas nem imaginavam se envolver um dia. Formadas por mães de militantes, algumas das quais até desaprovavam a atuação dos filhos, as Abuelas se viram diante de uma missão movida pelo amor e pela busca por justiça. Deram à luz como avós e resgataram a verdade de, até agora, 130 casos de crianças apropriadas, que puderam recuperar sua identidade. E ajudam a manter viva a memória de um processo atroz e violento ao entoar o coro de que “nunca mais” ele deve se repetir. O legado das Abuelas e de cada avó é observado de maneira muito particular em cada depoimento dado por cientistas, antropólogos, filhos de desaparecidos e netos recuperados, mas todos têm em comum a ideia de que a atuação delas atravessa invariavelmente a luta por memória, verdade e justiça. Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Lorena Battistiol Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Miguel Santucho Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Victor Penchaszadeh Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Carla Villalta Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Claudia Poblete Hlaczik

  • Buscarita | Em busca dos 99,99%

    Em busca dos 99,99% Notícia de jornal ​ Raquel procurava nos jornais todos os dias alguma possível informação sobre seu filho e sua nora, que esperavam um bebê quando foram sequestrados pelos militares. Em uma manhã de 1979, uma notícia chamou sua atenção. Mas não trazia exatamente pistas: tratava da história de um homem que negava ser pai de uma criança e foi submetido a um exame de sangue que acabou por confirmar sua paternidade. Raquel, então, deu um pulo da cadeira, como quem tem uma grande ideia, e foi correndo ao encontro das outras avós. Começava ali a jornada que revolucionaria as buscas feitas pelas Abuelas de Plaza de Mayo . A notícia de jornal inspirou as Abuelas a recorrerem à ciência para perguntar se era possível identificar netas e netos a partir de seu sangue. Elas pensaram que talvez os cientistas pudessem aproveitar a tecnologia usada na época nos exames de paternidade para confirmar parentesco com crianças com pais desaparecidos. O envolvimento dos cientistas ​ Em alguns anos, após incontáveis viagens pelo mundo para buscar apoio internacional, as Abuelas procuraram o geneticista argentino Victor Penchaszadeh, na época exilado em Nova York, que as colocou em contato com outros cientistas. Posteriormente, se formaria um grupo de especialistas dedicados a responder ao questionamento daquelas avós que procuravam por seus netos. Depois de reuniões e mais reuniões – incluindo parte do simpósio anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) de 1984 –, as avós receberam a resposta que tanto queriam. Sim, era possível confirmar parentesco com possíveis netos só a partir do sangue delas e de outros familiares que estivessem vivos. “Então, estava criado o índice de abuelidad , que foi capaz de estabelecer as chances de que a compatibilidade entre marcadores genéticos de uma criança e dos supostos avós fosse efetivamente definida por relação de parentesco, e não simplesmente por casualidade ou azar”, explica Victor Penchaszadeh. ​ ​ ​ Estela de Carlotto , presidenta das Abuelas de Plaza de Mayo, e Victor Penchaszadeh , geneticista que ajudou as avós no desenvolvimento do índice de abuelidad I. Antígenos de histocompatibilidade Baseados no que já se tinha a partir dos exames de paternidade, os primeiros estudos do índice de abuelidad se debruçaram sobre tipos sanguíneos e os chamados antígenos de histocompatibilidade (HLA, na sigla em inglês). O DNA ainda não era analisado diretamente, então restava aos cientistas observar o produto de sua expressão. “Grupos sanguíneos e antígenos de histocompatibilidade são produzidos por genes, que são a forma como está organizado o DNA. Ou seja, é uma maneira de estudar os genes a partir de seus produtos”, esclarece Victor Penchaszadeh. Analisar o tipo de sangue ajuda a excluir vínculos, mas não a confirmá-los. Por exemplo, se uma pessoa é do grupo AB e um suposto progenitor é do grupo O, pode-se excluir a possibilidade de parentesco. A chance do vínculo biológico existe somente se o suposto progenitor tiver o tipo A, B ou AB, mas isso também não é suficiente para afirmar que ele seja o pai ou a mãe da pessoa, já que o sistema sanguíneo ABO tem uma variabilidade genética limitada. Ou seja, muita gente tem tipos sanguíneos compatíveis mesmo sem qualquer parentesco. “Então, como você vai distinguir uma pessoa da outra por uma análise que é um pouco diferenciativa?”, questiona o médico argentino. Os antígenos de histocompatibilidade, por sua vez, proporcionam maior precisão nas análises por serem moléculas com milhares de variantes. Importantes para identificar partículas estranhas ao corpo, os HLA são moléculas proteicas fundamentais no transplante de órgãos. São eles que ajudam os médicos a prever as chances de que o organismo do receptor aceite ou rejeite o órgão transplantado. No caso da busca das Abuelas, a variabilidade dos HLA tornava mais difícil a ocorrência de falsos positivos. Isso significa que, diferentemente da análise a partir de tipos sanguíneos, era menos provável que duas pessoas sem parentesco tivessem marcadores de HLA muito semelhantes. Hospital Durand O índice de abuelidad , apesar de funcionar bem na teoria, ainda enfrentava obstáculos para ser executado. O principal desafio era a necessidade de ter amostras de sangue fresco para as análises, o que precisaria ser feito por um laboratório especializado. Foi então que, dos Estados Unidos, o imunogeneticista chileno Pablo Rubinstein informou às Abuelas que o Hospital Durand, em Buenos Aires, dispunha de um laboratório moderno e equipado para dar prosseguimento aos testes genéticos do índice de abuelidad. Sob a chefia de Ana María Di Lonardo, foi no departamento de imunologia do hospital que funcionou a primeira sede do Banco Nacional de Dados Genéticos. A primeira neta recuperada com a ajuda da ciência Paula Eva Logares tinha quase dois anos quando foi sequestrada junto a seus pais Mónica e Claudio, em 1978. Depois de ter sido localizada na casa do então subcomissário da polícia de Buenos Aires, uma denúncia foi documentada em um juizado federal no primeiro dia da volta da democracia, em 10 de dezembro de 1983. A justiça autorizou que se extraísse uma amostra de sangue de Paula para compará-la com as de sua avó e tios maternos e avós paternos. Após resultados positivos da análise, a Corte Suprema de Justiça argentina ordenou em 1984 que Paula voltasse a viver com seus avós. Quando retornou à casa onde vivia, Paula foi até a porta do quarto que havia sido seu, olhou para a cama e perguntou: “Onde está meu ursinho de pelúcia?”. Testar além de uma família As análises seguintes à de Paula Logares também foram feitas de forma individual, ou seja, uma família suspeitava que determinada criança fosse um neto apropriado, fazia uma denúncia e abria-se o processo que poderia levar aos testes genéticos. Mas, com o passar do tempo, as Abuelas e os cientistas foram percebendo que isso gerava perda de informação e de tempo. Faltava um banco onde se pudesse depositar as informações genéticas das então mais de 300 famílias que buscavam netos. Dessa forma, quando um suposto neto desse seu sangue para a análise, seria possível compará-lo não apenas com o de uma avó ou parente, mas de todos os grupos familiares que tivessem deixado suas amostras no banco. Assim criava-se o Banco Nacional de Dados Genéticos. Ou seja, antes mesmo da criação do Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), que ocorreu só em 1987, o índice de abuelidad já estava sendo utilizado para restituir identidades e recuperar netas e netos apropriados. A tecnologia responsável por confirmar essas relações de parentesco foi acompanhando os estudos genéticos mundiais, que naquela época ainda eram incipientes no campo das moléculas de DNA. REDBIOÉTICA/REPRODUÇÃO II. DNA nuclear Quando um espermatozóide fecunda um óvulo, o núcleo do zigoto é constituído 50% pelo DNA do homem e 50% pelo da mulher. Como os genes do homem e da mulher também são constituídos meio a meio pelas informações genéticas de seus respectivos progenitores, o DNA nuclear do novo embrião é formado por ¼ de genes de cada um de seus avós. Isso significa que os milhares de genes que uma pessoa carrega têm em sua composição dados de seus ascendentes. Com os avanços dos estudos sobre o DNA, a grande novidade do Banco no início dos anos 90 foi incorporar a tecnologia capaz de analisar diretamente esses genes. Assim, os testes ganhavam maior precisão, já que era possível escolher os segmentos genéticos com mais variabilidade entre a população. “É muito mais exato, mas não porque os marcadores de histocompatibilidade fossem ruins, e sim porque a evolução da ciência fez com que tivéssemos técnicas e ferramentas muito melhores”, diz Florencia Gagliardi, cientista do BNDG há 31 anos. Essas análises eram e ainda são baseadas em fórmulas estatísticas que consideram a frequência do segmento analisado na população argentina. Isso é importante justamente para calcular a probabilidade de que uma semelhança genética seja por casualidade ou de fato por vínculo biológico. III. DNA mitocondrial Gagliardi conta que o BNDG registra o perfil genético completo de cada uma das amostras de sangue que chegam, o que significa que, além do DNA nuclear, os cientistas fazem análises sobre o DNA mitocondrial e os cromossomos sexuais. Isso aumenta os parâmetros para que um parentesco seja confirmado e se alcance os 99,99% de chance de que uma pessoa seja neta de uma das Abuelas de Plaza de Mayo. O DNA mitocondrial foi especialmente revolucionário para os trabalhos do Banco principalmente por ser um genoma exclusivo da linha materna de um indivíduo. Enquanto um espermatozoide vai transmitir apenas seu núcleo ao embrião – por sua constituição ser praticamente puro núcleo –, o óvulo tem um citoplasma, que contém elementos nutritivos e as organelas. Dentre elas estão as mitocôndrias, responsáveis principalmente pela respiração celular e que contêm um genoma próprio. Embora também sofra divisões e até mutações, o DNA mitocondrial se mantém como um bom marcador para traçar a linhagem materna das espécies, incluindo a humana. Avós, tios, primos e irmãos por parte de mãe herdam esse genoma praticamente idêntico a cada geração, independentemente de serem homens ou mulheres. Mesmo que esteja em condições inadequadas ou em pouca quantidade , o DNA mitocondrial apresenta alta sensibilidade para ser analisado. Por isso, o vínculo biológico pode ser descartado entre dois supostos parentes maternos cujo material genético das mitocôndrias apresente diferenças. Atualmente coordenada por Florencia Gagliardi, a área de DNA mitocondrial foi incorporada ao BNDG a partir de 1992 pela cientista norte-americana Mary Claire-King. “Se eu fosse uma pessoa religiosa, estaria convencida de que Deus fez o DNA mitocondrial especificamente para que as Abuelas de Plaza de Mayo o usassem”, disse a geneticista ao jornal Perfil em agosto de 2014. IV. Cromossomos sexuais Se restarem dúvidas na análise mesmo após a comparação entre o DNA nuclear e mitocondrial – ou se não houver amostras de sangue daqueles que seriam os parentes maternos –, os cientistas podem recorrer ainda aos cromossomos sexuais, que podem ser XX ou XY em uma pessoa. Todas as Abuelas de Plaza de Mayo carregam o par XX e só podem ter repassado aos filhos o cromossomo X. Já os maridos delas, por carregarem o par XY, podem ter transmitido adiante tanto o cromossomo X quanto o Y. Portanto, uma neta apropriada que tem dois cromossomos X pode ter recebido um deles tanto de sua avó quanto de seu avô maternos enquanto o outro só pode ter vindo de sua avó paterna. Já um neto apropriado tem o mesmo cromossomo Y de seu pai, do pai de seu pai, do avô paterno de seu pai, e assim sucessivamente. Esse método é utilizado caso seja necessário comparar segmentos específicos diante da disponibilidade das amostras de parentes disponíveis no Banco. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ “Se possível, o grupo de antropologia forense do Banco exuma a pessoa, pega a amostra e, assim, vamos completando as árvores genealógicas”, afirma. O BNDG conta com uma equipe de antropólogas forenses que analisam o local e as condições em que a pessoa foi enterrada antes de exumá-la e coletar dados. “Aqui, a amostra é analisada por um grupo de especialistas em análises de restos ósseos e material de baixa quantidade de DNA”, acrescenta Gagliardi. Como milhares de desaparecidos foram mortos e enterrados sem o conhecimento de suas famílias ou até sem a própria identificação, localizar os corpos de familiares “faltantes” no banco de dados genéticos é um desafio. É com isso que trabalha a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), ONG dedicada a identificar os desaparecidos durante a ditadura a partir de exumações. No caso em que a EAAF confirma a identificação do corpo de uma mãe ou pai de um dos netos buscados pelo Banco, as informações são compartilhadas com os cientistas do BNDG. “Se identificarem uma mulher e descobrirem que ela morreu quando estava grávida, ou seja, que o bebê nunca chegou a nascer, então o caso é dado como encerrado, porque a busca pelo neto foi resolvida”, diz Gagliardi sobre como o trabalho do EAAF ajuda o Banco. Dos 13 2 casos considerados resolvidos pelas Abuelas de Plaza de Mayo, 13 foram gestações que não chegaram ao fim, seja porque as mães perderam seus bebês no período em que estiveram sequestradas, seja porque foram mortas antes de darem à luz. A ciência ajuda as Abuelas. Busca a maneira, cria cálculos estatísticos para ajudá-las. Isso é algo inédito no mundo, porque geralmente há avanços científicos e as pessoas dizem 'olha, isso pode nos servir'. Aqui, aconteceu o contrário: elas se aproximaram dos cientistas, e os cientistas fizeram com que a ciência as ajudasse.” Florencia Gagliardi , chefe da área de DNA mitocondrial e geneticista do BNDG há 31 anos Antropologia forense Quanto mais familiares de um grupo estiverem cadastrados no BNDG, mais chances eles têm de encontrar um neto a cada vez que informações de uma nova pessoa forem inseridas. “Se o neto procurado por esse grupo vier ao Banco, é estatisticamente muito provável que o identifiquemos facilmente”, afirma Florencia Gagliardi. Mas há muitos casos em que o grupo familiar está dizimado e poucos parentes deixaram suas amostras no Banco, o que dificulta o potencial matemático de identificação. “Então, tratamos de buscar se existe a possibilidade de agregar novos marcadores ao Banco”, conta a responsável pela área de DNA mitocondrial. Os cientistas criam simulações que informam quais familiares poderiam aumentar esse poder estatístico e tentam colher os respectivos dados genéticos inclusive de pessoas já falecidas. Durante a ditadura, milhares foram enterrados como NN (não nomeados). Na foto, Madre da Plaza de Mayo observa o resultado de exumações em um cemitério de Santa Fé ROBERTO PERA/EAAF/REPRODUÇÃO

  • Política de Privacidade | Moray Dive School

    Política de Privacidade Uma política de privacidade é uma declaração que comunica algumas ou todas as formas como um site coleta, usa, divulga e administra os dados de seus visitantes e clientes. Ela cumpre a exigência legal de proteção à privacidade do visitante ou cliente. Cada país tem suas próprias leis, com requisitos que variam segundo a jurisdição em relação ao uso de políticas de privacidade. Certifique-se de cumprir a legislação relevante para suas atividades e localização. Em geral, o que é preciso abordar na Política de Privacidade? Que tipo de informações são coletadas? Como as informações são coletadas? Por que você coleta as informações pessoais? Como você armazena, usa, compartilha e divulga informações pessoais de quem visita o seu site? Como (e se) você comunica isso aos visitantes do seu site? O seu serviço segmenta e coleta informações de menores de idade? Atualizações da Política de Privacidade Informações de contato Confira este artigo de suporte para receber mais informações sobre como criar uma Política de Privacidade. As explicações e informações fornecidas aqui são apenas exemplos gerais. Não confie neste artigo como orientação jurídica ou como recomendações sobre o que você realmente deve fazer. Recomendamos que você busque orientação jurídica se precisar de ajuda para entender e criar sua política de privacidade.

  • Política de Cookies | Moray Dive School

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  • Buscarita | O Banco de Dados Genéticos

    Banco Nacional de Dados Genéticos Criado em 1987, o Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG) tornou-se a principal ferramenta da luta das Abuelas de Plaza de Mayo para encontrar os netos apropriados pela ditadura militar. O órgão hoje incorporado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva da Argentina funcionava inicialmente sob a jurisdição de um hospital de Buenos Aires e utilizava métodos que avaliavam o produto dos genes, e não o DNA em si. Quando o BNDG foi criado, os estudos sobre o DNA ainda eram incipientes, e o Banco incorporou as novas tecnologias conforme elas foram desenvolvidas. A revolução genética produzida pelos cientistas foi criar um método inédito capaz de confirmar vínculos biológicos entre crianças e avós sem a presença dos pais, que estavam desaparecidos: esse era o índice de abuelidad , que foi o primeiro passo para a posterior sedimentação das análises em um banco de dados. Hoje, os geneticistas processam o perfil genético completo de cada amostra que entra no Banco, o que inclui informações sobre o DNA nuclear, DNA mitocondrial e cromossomos sexuais. O objetivo é chegar nos 99,99% de compatibilidade entre as amostras de sangue de pessoas das quais se suspeita que possam ser algum dos netos e dos grupos familiares que têm seus dados cadastrados no Banco. Dezenas de identidades foram recuperadas graças ao trabalho dos cientistas e das Abuelas, que impulsionaram o desenvolvimento de um órgão desse tipo, até hoje inédito em todo o mundo. Argentina na época Nem quatro anos após o fim da ditadura foram necessários até que se criasse o BNDG. Geneticistas, representantes das Abuelas e antropólogos reconhecem a rapidez do processo, que já tinha todos os ingredientes para se consolidar. Esta série de vídeos explica o contexto da criação do Banco. LEIA MAIS A ciência por trás O trabalho do Banco, capaz de mudar a vida das pessoas ao apresentá-las à sua verdade, é sustentado por pesquisadores e geneticistas experientes, que acompanharam estudos genéticos internacionais para aprimorar as técnicas utilizadas nas análises. A expectativa agora é encontrar o neto de número 133. LEIA MAIS Como chegar até o banco Entrevistas, análise de documentação, solicitações judiciais e investigações são alguns dos passos anteriores à realização dos testes genéticos no BNDG, que é a última etapa para confirmar ou descartar o vínculo de uma pessoa com famílias de desaparecidos durante a ditadura. LEIA MAIS VEJA O HISTÓRICO Linha do tempo BNDG

  • Buscarita | Trajetória das Abuelas de Plaza de Mayo

    Trajetória Quem são elas Já desde antes da ditadura militar argentina, que teve seu início em 24 de março de 1976, homens e mulheres desapareciam. Às vezes porque eram militantes que fugiam para não ser pegos, e muitas vezes porque eram sequestrados pela Aliança Anticomunista Argentina (Triple A) ou pelos próprios militares. Com o início da ditadura, rapidamente passaram a ser milhares os pais, tios e tias, irmãos e irmãs e filhos e filhas que não voltavam para casa. Mas, dessa vez, as mães sabiam que eles não estavam se escondendo: tinham sido levados. Movidas pelo amor e pela angústia de não ter informações sobre o paradeiro de seus filhos, muitas mães começaram a ir a delegacias, onde ninguém lhes respondia sobre o que poderia ter acontecido com eles. Iam a hospitais, quartéis, igrejas e tribunais, e ninguém dizia nada. Até esse momento, porém, ainda não estavam organizadas. Foi justamente a partir de encontros recorrentes nesses lugares que elas se conheceram e perceberam que aquela luta não teria frutos se fosse individual: tinham que se unir e atuar coletivamente. Como nenhum órgão público dava respostas sobre seus filhos – e muito menos agia para procurá-los –, as mães passaram a ir à Praça de Maio, em Buenos Aires, onde fica localizada a Casa Rosada, sede do governo nacional. À espera de informações, sentaram-se em frente à estátua de Belgrano, mas logo um policial as obrigou a circular, argumentando que o estado de sítio não permitia que permanecessem ali. Então, cumpriram a ordem e começaram a circular, mas ao redor da estátua. Daquele dia em diante, toda semana se reuniriam para fazer rondas em torno do monumento de bronze. Por isso, se tornaram as Madres de Plaza de Mayo – ou Mães da Praça de Maio –, associação criada em abril de 1977. Em 1º de outubro de 1977, as Madres decidiram se unir à peregrinação católica à cidade de Luján, que reunia milhares de argentinos anualmente. Na ocasião, elas pretendiam divulgar sua luta e, para isso, decidiram criar uma forma que as identificasse em meio à multidão. Algumas sugestões foram dadas até que alguém disse: "E que tal colocarmos uma fralda na cabeça? Todas temos uma fralda de pano dos meninos em casa". ​ Então, cada uma das mães amarrou um lenço branco na cabeça. Elas chegaram a ser confundidas com freiras, mas logo aquelas fraldas de pano se tornariam o maior símbolo da luta das Madres de Plaza de Mayo. ​ ​ A cada quinta-feira – dia escolhido para as rondas –, somavam-se mais mulheres à luta. Até que um dia uma delas se afastou para perguntar às outras se mais alguém estava procurando por uma filha ou nora grávida ou até por algum de seus netos. E uma a uma foram se apresentando. A partir daí, elas se deram conta de que também precisavam buscar os filhos dos filhos e se organizar para isso. Na semana seguinte, em outubro de 1977, um grupo de 12 mulheres se reuniu para definir os primeiros passos da organização cuja luta segue até hoje. Naquele momento autodenominadas Abuelas Argentinas con Nietitos Desaparecidos, logo adotaram o nome dado a elas pela mídia internacional: Abuelas de Plaza de Mayo, cujo slogan era “buscar aos netos sem esquecer dos filhos”. Registro da tomada do poder pelos militares em 1976 (Eduardo Di Baia/Archivo AP) Fila de pessoas em busca de informações sobre desaparecidos (Jorge Sanjurjo/Archivo Crónica) Mães mostram fotos de seus filhos À direita, Raquel Marizcurrena, uma das fundadoras das Abuelas de Plaza de Mayo (Archivo Abuelas) Faixa de Madres e Abuelas em protesto (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) As rondas das Madres e Abuelas (Archivo General de la Nación) Estela de Carlotto (centro) e Rosa Roisinblit (esquerda) (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) Madres e Abuelas exigem aparição de filhos e netos com vida (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) “Os militares nos subestimavam por sermos mulheres. Diziam: 'Deixem-nas para lá. Essas loucas vão se cansar'. Isso não aconteceu e não só não paramos de caminhar como construímos todo um espaço de busca.” Estela Barnes de Carlotto presidenta das Abuelas de Plaza de Mayo DANIEL GARCIA/AFP

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