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  • Buscarita | Próxima geração

    Próxima geração ‘Porque não’ não é resposta O Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG) completou seu 35º aniversário em 2022. Desde 1987 tem ajudado as Abuelas de Plaza de Mayo a identificar os netos roubados pela ditadura militar argentina e a devolver a identidade de mais de uma centena de pessoas. A últim a restituição aconteceu em dezembro de 2022. A restituição de identidade nunca é um processo fácil e atravessa gerações, tanto as anteriores quanto as seguintes. E ao mesmo tempo em que o fato de ter filhos pode dificultar a tomada de decisão em torno de dúvidas enterradas, é também justamente a geração descendente que tem potencial para impulsionar a continuidade da luta das Abuelas. Hoje em dia, os netos que as Abuelas ainda buscam devem ter entre 40 e 50 anos. É a geração de pais de crianças, adolescentes e jovens adultos – e é nisso em que investe cada vez mais esforços a instituição das Abuelas de Plaza de Mayo. “Acredito que estejamos em um momento histórico de desafio por já entrarmos em outra geração”, diz Tatiana Sfiligoy, uma das netas recuperadas pelas Abuelas que compõem o comitê diretor da organização. “Muitas vezes os adultos que se apresentam às Abuelas ou à CoNaDI (Comissão Nacional pelo Direito à Identidade) já têm filhos e são eles quem dão tração às buscas, porque fazem perguntas para as quais os pais não têm respostas ou talvez nunca tenham se questionado.” A instituição acredita que a possível insistência por respostas dos bisnetos pode motivar que cada vez mais netos procurem resolver as dúvidas a respeito das origens genealógicas. Segundo María Laura Rodríguez, do departamento de apresentações espontâneas das Abuelas, muitos jovens têm ido até a sede da associação para contar a história da família e compartilhar as suspeitas de que o pai ou a mãe possa ser um dos netos buscados pelas Abuelas. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ Como ainda não há tecnologia para identificar diretamente os bisnetos, a orientação dada por Rodríguez é que os jovens conversem com seus pais para que eles mesmos se apresentem à organização ou à CoNaDI, já que se trata de um processo espontâneo. A confirmação de parentesco entre bisnetos e avós a partir da genética, porém, pode não estar tão distante. De acordo com a cientista do BNDG Florencia Gagliardi, o Banco está empenhado em desenvolver novas técnicas e marcadores de genealogia capazes de identificar bisnetos e até tataranetos das Abuelas. “Pela sua trajetória em genética forense aplicada à identificação humana, equipamentos de última geração e profissionais formados, acredito que o Banco ainda tenha muito potencial dentro do país e para outras causas de direitos humanos pelo mundo”, afirma a chefe da área de DNA mitocondrial. Além do incentivo dados pelos supostos bisnetos, apostar nessa geração apoia-se no fato de que os filhos dos filhos dos desaparecidos não viveram pessoalmente o trauma da apropriação. Ou seja, se eles tiverem dúvidas sobre a origem de sua família, vão poder enfrentar a busca pelas respostas de forma um pouco menos incômoda e, por isso, dar mais apoio aos pais. O BNDG deve existir pelo menos até que se identifique o 500º neto apropriado durante a ditadura militar. “O Banco nos dá a segurança e a tranquilidade de que, mesmo quando nós não estejamos mais aqui e todas as Abuelas se forem, ele continuará firme para dar respostas sobre a história dos argentinos”, acredita Claudia Poblete Hlaczik, neta da Abuela Buscarita Roa e também membro do comitê diretor da instituição. Por enquanto, cabe aos netos já restituídos e filhos de desaparecidos garantir que o trabalho feito pelas Abuelas se mantenha firme e siga em frente, além de se empenhar na manutenção da memória histórica da ditadura e da instituição. “Há Madres e Abuelas que, em suas cadeiras de rodas e com suas bengalas, continuam vindo, estando presentes e pressionando o Estado e a justiça”, diz Lorena Battistiol Colayago, que busca um irmão ou irmã nascido durante o cativeiro de sua mãe. “Se essas mulheres de 90 anos se levantam todas as manhãs e saem para lutar, não nos resta outra opção a não ser acompanhá-las e seguir seu trabalho. É um compromisso moral”, afirma ela, que é diretora nacional de espaços de memória da Secretaria de Direitos Humanos da Argentina.

  • Buscarita | Contexto de criação do BNDG

    Contexto de criação O Banco Nacional de Dados Genéticos foi criado graças à luta ​ das Abuelas de Plaza de Mayo, que surgiram a partir das mães que procuravam seus filhos desaparecidos. ​ Um dia, uma delas se questionou sobre o paradeiro também do neto pequeno e perguntou quem mais buscava crianças sequestradas ou bebês recém-nascidos. Doze mulheres se apresentaram e criaram, então, as Abuelas. Diante de tantas respostas negativas das autoridades sobre o paradeiro de seus filhos e netos, essas mulheres resolveram recorrer à ciência para desenvolver outra maneira de buscá-los. O INÍCIO DE TUDO Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado A CIÊNCIA RESPONDE 'SIM' Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado As viagens das Abuelas renderam frutos nos Estados Unidos, onde se encontraram com o geneticista argentino Victor Penchaszadeh, que estava exilado em Nova York. O cientista as colocou em contato com a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), que ajudou a formar um grupo que se comprometeu a buscar respostas à demanda das avós. ​ Eles, então, conseguiram desenvolver o índice de abuelidad , por meio do qual seria possível confirmar vínculos biológicos entre crianças e avós sem a presença da geração intermediária. A partir daí, a criação do Banco era questão de tempo. O Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG) foi criado em 13 de maio de 1987 pela lei nº 23.511. Exatamente 3 anos e 7 meses depois do fim da ditadura, o Congresso argentino determinava a regulamentação do órgão que viria a se tornar o grande trunfo da busca pelos netos das Abuelas de Plaza de Mayo. Personagens históricos explicam como a perda de poder dos militares, a pressão social, a transição democrática, a ciência e, é claro, as Abuelas garantiram a criação do BNDG imediatamente retomada a democracia. UM MILAGRE EXPLICADO Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado OS RESULTADOS Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado O BNDG significa para muitos a possibilidade de encontrar-se não apenas com sua família biológica, de que foram separados quando criança, mas principalmente com a sua verdade, identidade e origem. ​ O órgão teve sua legitimidade por vezes questionada, mas segue como referência no processo de memória, verdade e justiça da Argentina. ​ Quatro netos restituídos pelas Abuelas comentam impressões, processos e significados que a análise genética realizada pelo Banco trouxe às suas vidas. Créditos dos vídeos

  • Buscarita | Quem é Buscarita

    A mulher por trás do nome do site A chilena Buscarita Imperi Roa vive na Argentina há 50 anos. Mudou-se para o país vizinho para viver junto ao filho Pepe, que havia ido para lá em 1971 com o objetivo de fazer um tratamento ortopédico. Durante a adolescência, Pepe sofreu um acidente que o fez perder as duas pernas. Ao chegar no hospital para ver o filho, a primeira coisa que Buscarita ouviu foi: “Mãe, não fique triste nem chore. Eu vou ser a primeira pessoa a correr com pernas ortopédicas”. E lá foi ele, aos 16 anos, em busca do feito na Argentina. Em 28 de novembro de 1978, durante a ditadura militar, Pepe e sua companheira Trudy foram sequestrados em Buenos Aires. A neta de Buscarita, que tinha apenas oito meses, foi junto dos pais até um campo de detenção. Lá, permaneceu por três dias até que um militar a levasse para casa para registrá-la como filha própria. E assim Claudia Poblete Hlaczik foi criada. Na época, Buscarita trabalhava como supervisora da limpeza em um prédio do governo que ficava muito próximo à Praça de Maio, no centro de Buenos Aires. Sem respostas sobre o paradeiro do filho, nora e neta nas muitas delegacias pelas quais passou, Buscarita resolveu um dia se aproximar daquelas mulheres que caminhavam ao redor da praça e, a partir daí, se uniu à luta das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo. Buscarita seguiu em sua busca incessante por anos até que Claudia fosse encontrada e identificada como filha de José Poblete Roa (o Pepe) e Gertrudis Hlaczik (a Trudy), em fevereiro de 2000. A reaproximação entre avó e neta foi lenta, mas a Abuela respeitou o tempo da jovem que havia passado mais de duas décadas acreditando que sua identidade era outra. Um dia, ambas conversavam sentadas e Claudia se levantou, pegou na mão de Buscarita e a fez levantar para que dessem o primeiro abraço. E a neta disse: “Obrigada, vó, por ter me buscado e me dado a chance de conhecer minha verdadeira identidade”. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ Luta, família e trabalho ​ Ao longo dos anos em que buscava por Pepe, Trudy e Claudia, a Abuela chilena tinha que conciliar o trabalho com os cuidados dos outros filhos e da casa, que era muito distante do centro de Buenos Aires. “Para as Abuelas mais pobres era muito mais difícil, porque tínhamos que levantar às 5 da manhã, pegar um trem, vir trabalhar, escapar do trabalho, fazer a ronda da praça e voltar”, conta Buscarita. Depois, ela chegava tarde em casa e deixava prontas as refeições para os filhos comerem no dia seguinte. Da busca coletiva feita pelas Abuelas, Buscarita ganhou muitas companheiras para a vida. “Tínhamos reunião toda semana, depois começamos a tomar um cafezinho, um chá, a rir, a chorar, todas juntas. E assim fomos virando amigas, amigas, amigas”, diz ela. Mesmo depois de encontrar Claudia, Buscarita não deixou de buscar os outros netos apropriados. “Não importava que não fôssemos a avó, encontrar um neto era como reencontrar o nosso. Era uma festa, o recebíamos com todo o amor do mundo”, conta. Hoje em dia, ela é a única avó que continua indo quase todos os dias à casa das Abuelas, em Buenos Aires. A presidenta Estela de Carlotto segue trabalhando de sua casa, em La Plata. Respectivamente de Córdoba e Mar del Plata, Sonia Torres e Ledda Barrero são as outras avós que completam o quarteto que permanece em atividade. Ambas ainda não encontraram os netos ou netas que devem ter nascido durante o cativeiro de suas filhas, mas seguem firmes na luta. Uma vida de buscas Os pais de Buscarita lhe deram um nome que foi premonitório em relação à sua vida. Uma década antes de localizar Claudia, a chilena teve outro reencontro potente. Mas nesse caso era ela quem estava sendo buscada. Um dia, uma colega de escola de Fernando, um de seus filhos, ouviu em uma rádio do Chile que dois irmãos procuravam por uma mulher chamada Buscarita e disse a ele que devia ser sua mãe. Ele respondeu que não podia ser, porque sua mãe não tinha irmãos. A colega, convicta de que não devia haver muitas pessoas chamadas Buscarita pelo mundo, insistiu na informação e convenceu Fernando a entrar em contato com a rádio. Sim, era ela. Aos 50 anos, Buscarita descobriu ter dois irmãos e, enfim, os conheceu. Eles foram separados após a morte dos pais de Buscarita em um acidente de carro. Ela tinha três anos e foi viver com sua avó paterna, enquanto seus irmãos mais velhos – que eram filhos da mãe de Buscarita, mas de outro pai – passaram a morar com a família paterna. A rádio passou o telefone do tio de Fernando, que ligou para ele e ouviu, do outro lado, alguém dizer aos gritos: “Encontrei minha irmãzinha, encontrei minha irmãzinha!”. PAULA SANSONE E VALERIA DRANOVSKY/ANCCOM-UBA Buscarita Roa junto à neta e à bisneta, Claudia Poblete e Guadalupe Álvarez Como é ter um nome que tem tudo a ver com as buscas? ​ Buscarita Roa Sim! Todos me dizem o mesmo. Acontece algo muito estranho comigo, porque Buscarita… o ‘bus’ vem de ‘buscar’. Meus irmãos me buscaram, eu busquei meu filho e minha neta. Então, bem, meu nome faz todo sentido. ​ Buscarita, muito obrigada! ​ Buscarita Roa Não, por favor, obrigada a você pelo que está fazendo. Meu encontro com Buscarita: ternura de avó Demoro para encontrar o número certo, mas não o suficiente para me atrasar. Quando me localizo, toco a campainha e entro. Não à toa chamam a sede da associação de casa das Abuelas. A sensação de casa vem tanto da madeira que resistiu com o passar dos anos quanto da presença calorosa das muitas pessoas que entram e saem pela porta. É terça-feira, dia da reunião semanal do comitê diretor, então aproveito para ficar atenta à chegada dos netos com os quais ainda não consegui marcar entrevistas. Ouço parte da conversa de telefone entre a pessoa que me recebeu e o que deve ser a Buscarita do outro lado da linha. Sou informada de que ela acabou de entrar no táxi, mas que não deve demorar muito pois mora perto dali. Sim, vou conversar com uma Abuela de Plaza de Mayo e não me aguento de animação por dentro, mas tento não deixar transparecer. Quando ela chega, já estou com a câmera posicionada depois de mexer um pouco nas poltronas da sala para ajustar o enquadramento. Depois de me cumprimentar, ela se senta em outra poltrona, então pergunto se ela se incomoda em mudar para a outra, no canto da sala. Ela aceita com simpatia e começamos a entrevista. Fico preocupada em tomar muito de seu tempo e cansá-la (como fiz com o Victor após quase três horas de entrevistas que tiveram de ser divididas entre dois dias). Mas a cada resposta que ela conclui, solta um sorriso que indica estar tudo bem. Depois da última pergunta, agradeço pela entrevista e me levanto para cumprimentá-la com as mãos, o que logo se torna um abraço afetuoso. Com uma ternura bem típica de avós. Saímos da sala, e eu já estou tomada por uma sensação de que meu trabalho está dando certo. Na verdade, ali, depois daquela entrevista, a sensação é de que já deu certo. A conversa de 30 minutos com Buscarita me serve de combustível para seguir firme o ritmo de apuração nos quatro dias que me restam em Buenos Aires. Dos quatro netos com quem combinei de falar, só consegui encontrar-me com uma – que é justamente Claudia, a neta de Buscarita. Mas aproveito a visita à casa das Abuelas para esperar a chegada dos outros membros do comitê diretor que vêm para a reunião. Ainda é cedo, porém; a reunião só começa em duas horas. Espero em uma cadeira ao lado da porta e me atento à dinâmica daquele lugar. A campainha toca, alguém atende e abre a porta de fora e, depois de alguns segundos, também a de dentro. As pessoas que já estão na casa se dividem entre as várias salas e corredores que existem nela, mas ressurgem na sala principal toda vez que alguém chega. Quem entra é recebido com sorrisos e abraços, como se fosse sempre aniversário de alguém. Eles parecem felizes por estarem ali. Em uma dessas vezes, Buscarita reaparece e me vê novamente. Demonstra surpresa por eu ainda estar ali e preocupação por ser hora do almoço e eu ainda não ter comido. Vem até mim, toca no meu ombro e me oferece uma bolacha, um chazinho ou um mate. Sinto como se eu estivesse com a minha avó. Paro para pensar como é possível que aquela senhora, que tem uma faixa de cabelos brancos e um lenço colorido enrolado no pescoço, nunca tenha perdido a ternura apesar das dificuldades da vida, da perda do filho para a ditadura e da apropriação da neta. E lembro-me do que ela disse que a motiva a seguir trabalhando nas Abuelas: o amor. O amor aos filhos, o amor aos netos e o amor à vida, “porque enquanto se estiver vivo, é possível seguir fazendo coisas”.

  • Termos e Condições | Moray Dive School

    Termos e Condições Os Termos e Condições (“Termos”) são um conjunto de termos jurídicos definidos pelo proprietário de um site. Eles estabelecem os termos e condições que regulam as atividades dos visitantes e o relacionamento entre os visitantes e o proprietário do site. Os termos devem ser estabelecidos de acordo com as necessidades específicas e a natureza de cada site. Por exemplo, um site que oferece produtos a clientes envolvendo transações de comércio eletrônico precisa ter termos que sejam diferentes dos termos de um site que oferece somente informações. Os termos dão ao proprietário do site a capacidade de se proteger em caso de uma possível exposição jurídica. Em geral, o que é preciso abordar nos Termos e Condições? Quem pode usar o site; quais são os requisitos para criar uma conta (se for relevante) Termos comerciais importantes oferecidos aos clientes Métodos de pagamento (Cartões de crédito/débito, PayPal, Boleto bancário, etc.) Salvaguarda do direito de modificar a oferta Garantias e responsabilidade por serviços e produtos Titularidade de propriedade intelectual, direitos autorais e logos Direito de suspender ou cancelar contas de membros Indenização Limitação de responsabilidade Direito de alterar e modificar os Termos Direito aplicável e resolução de demandas Informações de contato Confira este artigo de suporte para saber mais sobre como criar uma página de Termos e Condições. As explicações e informações fornecidas aqui são apenas exemplos gerais. Não confie neste artigo como orientação jurídica ou como recomendações sobre o que você realmente deve fazer. Recomendamos que você busque orientação jurídica se precisar de ajuda para entender e criar seus Termos.

  • Buscarita | Histórias dos netos

    Histórias Nesta página, a trajetória de quatro netos restituídos representa a diversidade de situações, sentimentos e processos vividos por aqueles que tiveram a identidade restituída graças às Abuelas de Plaza de Mayo e ao Banco Nacional de Dados Genéticos Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo ABUELAS.ORG.AR Mirta Britos, Oscar Ruarte, Alberto Jotar e Laura Malena: mãe, pai, padrasto e irmã de Tatiana ABUELAS.ORG.AR Ana María Granada e Gastón Gonçalves, pais de Manuel FPB JOSÉ POBLETE O casal Gertrudis Hlaczik e José Poblete Roa com a flha Claudia LUCIANA BARRERA ORO/ANCOM-UBA Guillermo Amarilla Molfino exibe as fotos de seus pais, Guillermo Amarilla e Marcela Molfino MARTÍN ACOSTA Tatiana e sua avó paterna, Amalia Pérez de Ruarte BBC/REPRODUÇÃO Manuel (dir.) e seu irmão Gastón, baixista da banda argentina Los Pericos ABUELAS.ORG.AR Claudia e sua avó Buscarita Roa, mãe de Pepe Oscar foi sequestrado em Córdoba, em 1976, em uma das muitas vezes em que voltava de Buenos Aires após deixar a filha de três anos com a ex-companheira, Mirta. Antes de se separarem, haviam militado juntos pelo Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). Em agosto de 1977, a pequena Tatiana ganhou uma meia-irmã, fruto da relação entre Mirta e seu novo companheiro, Alberto. “Eu me lembro de perguntar por que ela segurava aquela roupa de bebê e ela me responder: ‘Porque você vai ter uma irmãzinha, eu estou grávida’”, conta Tatiana. Dois meses e meio depois do nascimento de Laura, a mãe e o padrasto de Tatiana também foram sequestrados. Militares invadiram a casa da família para levar Alberto e capturaram Mirta na rua. As meninas de apenas quatro anos e dois meses estavam com a mãe, foram abandonadas em uma praça e posteriormente levadas a diferentes orfanatos. Manuel não chegou a conhecer seu pai, Gastón, que havia sido sequestrado no primeiro dia do regime militar na Argentina – 24 de março de 1976 –, três meses antes do nascimento do filho. A casa de Gastón e Ana María foi alvejada por 40 homens do exército armados com metralhadoras, granadas e bombas de gás lacrimogêneo em 19 de novembro de 1976, assassinando a mãe do pequeno Manuel, então com cinco meses de idade. Antes de morrer, Ana María colocou o bebê dentro de um armário, que o salvou dos gases e das balas. Único sobrevivente do ataque que matou Ana María e a outra família que estava na casa – um casal e duas crianças de três e cinco anos –, Manuel foi levado junto aos corpos a um hospital. Para se recuperar dos problemas respiratórios causados pelos gases, o bebê ficou quatro meses internado sob custódia policial. Depois, um juiz ordenou que ele fosse entregue a uma família com quem não tinha nenhum vínculo biológico. Aos oito meses de idade, Claudia foi apropriada por um tenente-coronel e sua esposa após ter sido levada junto a sua mãe, Gertrudis, ao centro clandestino Olimpo, em Buenos Aires. No mesmo dia do sequestro da companheira e da filha, José (ou Pepe), também foi levado pelos militares. A menina foi criada e registrada como filha própria de um casal que já tinha cerca de 50 anos na época. Foi só durante a adolescência que Claudia começou a se questionar sobre a possibilidade de não ser filha biológica daqueles que se diziam seus pais, devido à idade avançada deles. Mas o que se sobressaía entre as preocupações da menina em relação ao casal era que eles morressem e ela ficasse sozinha. Quando foi sequestrada junto a seus três filhos, em 17 de outubro de 1979, Marcela não sabia que estava grávida de um mês. Em junho de 1980, ela deu à luz seu quarto filho, ainda no centro de detenção Campo de Mayo, em Buenos Aires. O bebê Guillermo foi apropriado por um militar que trabalhava lá, que com a ajuda de um médico falsificou todos os documentos necessários. A ausência de vínculos com aqueles que o tinham criado passou a alimentar as dúvidas em Guillermo, que foram crescendo e o levaram às Abuelas de Plaza de Mayo em 2007, quando já tinha 27 anos. A suspeita nos documentos motivou uma análise genética no Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), que deu um resultado negativo. Deu negativo porque as famílias de Marcela e seu companheiro (também chamado Guillermo) não tinham conhecimento da gravidez. A história só mudou graças ao depoimento de Silvia Tolchinsky em um dos julgamentos referentes ao Campo de Mayo. A sobrevivente do centro de detenção relatou que Marcela Molfino esteve grávida enquanto detida e que deu à luz. Depois disso, as famílias Molfino e Amarilla foram convocadas a deixar suas amostras de sangue no BNDG, que posteriormente refez as comparações com o sangue de possíveis netos. Dessa vez, Guillermo recebeu um resultado diferente: descobriu que ele era Guillermo Amarilla Molfino, filho de Marcela e Guillermo, militantes da organização Montoneros e desaparecidos desde 1979. Tatiana foi o primeiro caso de restituição pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Com respectivamente seis e dois anos, ela e sua irmã estavam sob a guarda do casal Sfiligoy, que queriam adotá-las, quando uma denúncia permitiu que elas fossem localizadas pelas avós no juizado em que corria o processo de adoção. Era 1980, e o BNDG só surgiria sete anos depois. Naquela época, as Abuelas procuravam seus netos principalmente com base em fotos e em informações físicas que tinham das crianças quando muito pequenas, como marcas de nascença. As avós de Tatiana e Laura souberam que haviam encontrado as meninas assim que viram a irmã mais velha, cuja aparência ainda era praticamente idêntica. “Eu me lembro que, nesse primeiro encontro, me perguntaram se eu reconhecia aquelas pessoas e eu disse que não, acho que por medo ou como um mecanismo de defesa”, conta Tatiana. Em outra ocasião, 15 dias depois, ela finalmente reconheceu as avós e iniciou a partir daí seu processo de restituição. As meninas continuaram morando com Inés e Carlos Sfiligoy pois as avós viram que, embora tenham sido separadas da família biológica, elas estavam bem e sendo criadas por um casal que as adotou de boa fé, sem saber de sua origem e sem privá-las de conhecer sua verdadeira identidade. As crianças seguiram vivendo com os pais adotivos, mas com o compromisso de também estar com a família biológica. Manuel já sabia que era adotado, mas nunca imaginou que seria filho de desaparecidos. Foi encontrado após as Abuelas traçarem o caminho pelo qual o menino foi levado, que passou pelo hospital e terminou no juizado de menores. Elas, então, conseguiram descobrir o novo nome que havia sido dado a Manuel e o localizaram. A Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) teve papel fundamental na busca de Manuel ao descobrir e coletar amostras dos restos de sua mãe, Ana María. Em 1997, ele fez os testes no BNDG que confirmaram sua identidade. Fã da banda Los Pericos, Manuel jamais pensou que o resultado revelaria ainda que o baixista do grupo é seu irmão. “Ele era filho único e eu também, e de repente ambos ganharam um irmão. Ele tem três filhos, então imediatamente eu também virei tio. É muito bonito dizer que eu tenho um irmão, eu falo dele, ele fala de mim, e nos vemos sempre que podemos”, diz Manuel. Durante as brincadeiras de criança, Claudia nunca fez questão de fingir ser a protagonista do desenho suíço Heidi. Ela preferia interpretar a amiga de Heidi, Clara, uma menina loira que andava de cadeira de rodas. “Isso enlouqueceu meus apropriadores, porque eles diziam ‘credo, isso vai atrair coisas ruins, é muito estranho uma menina brincar que não consegue andar’”, conta Claudia. Aos dois anos, ela ganhou de presente um boneco que tinha as pernas curtinhas, de quem não largava onde quer que fosse. Decidiu chamá-lo de Pepe. Foi só depois de fazer o teste genético e descobrir sua verdadeira origem que Claudia tomou conhecimento de que todos chamavam seu pai biológico de Pepe, embora seu nome fosse José. As coincidências não param por aí: Pepe também era uma pessoa com deficiência – havia perdido as duas pernas em um acidente com um trem ainda na adolescência. Uma vez em contato com a família biológica, Claudia soube também que, quando bebê, dava muita risada ao subir no colo de seu pai enquanto sua mãe, Gertrudis, empurrava os dois em cima da cadeira de rodas. “Eu não acredito muito em misticismos, mas isso é um fato. É algo estranho que eu fazia na infância, que talvez esteja relacionado a memórias que vivi quando bebê. Pode ser algo mágico e místico ou simplesmente uma lembrança, dessas coisas que ficam”, comenta ela. Descobrir a verdade Três netos restituídos a partir do trabalho do Banco Nacional de Dados Genéticos contam qual foi a primeira reação logo após receberem o resultado do teste Para conferir a tradução em português, dê o play e clique sobre o botão da nota musical Reencontrar a família (e a si mesmo) Netos entrevistados contam como foi o reencontro com as avós que os buscaram incessantemente Para conferir a tradução em português, dê o play e clique sobre o botão da nota musical

  • Buscarita | As 'apropriações'

    As 'apropriações' O que fizeram com os filhos dos desaparecidos? É sua primeira vez aqui. Por isso, tudo é novo: os cheiros, os sons, as luzes. Em poucos segundos, saiu de seu maior conforto para experimentar todos os sentidos possíveis. Sem caminho de volta, veio ao mundo. E agora? Apropriação como parte do plano Os bebês nascidos em cativeiro durante a ditadura militar na Argentina (1976-1983) foram privados de sua liberdade desde o parto. Foram retirados dos braços das mães, às quais se dizia que logo seriam devolvidos a elas ou levados aos cuidados de suas famílias. Isso aconteceu raras vezes. “A norma era outra. Após parirem sob condições subumanas, as mães eram transferidas [para a execução] e as crianças eram apropriadas ou inseridas em um circuito, que costumo denominar jurídico-burocrático, composto por creches, tribunais e equipes particulares de adoção”, diz Carla Villalta, coordenadora da equipe de Antropologia Política e Jurídica da Universidade de Buenos Aires (UBA). O que significa ser apropriado? Apropiación é um termo em espanhol cunhado pela equipe de advogados das Abuelas de Plaza de Mayo para definir o processo de roubo de filhos de desaparecidos que foram retirados de suas famílias e entregues a outras pessoas. Neste site, os neologismos em português “apropriação”, “apropriado” e “apropriar” referem-se aos conceitos de apropiación , apropiado e apropiar . Conceitualmente, a apropriação restringe-se ao período histórico da ditadura na Argentina, ou seja, entre 1976 e 1983. “Basicamente está ligada à ideia de perpetuar o desaparecimento dos pais, limpar todos os rastros, substituir a identidade e apagar a origem”, explica a pesquisadora da UBA. Nos centros clandestinos, mantinha-se propositalmente as gestações como parte do Processo de Reorganização Nacional, pelo qual os militares pretendiam exterminar os subversivos. Segundo o discurso que dominava entre as forças armadas, uma educação correta poderia impedir que os filhos dos desaparecidos também propagassem a subversão. Seria como cortar o mal pela raiz poupando a vida das crianças, embora muitas delas tenham sido assassinadas em ataques militares junto a seus pais. Além de roubar os nascidos em cativeiro, as apropriações incluíam como alvo as crianças pequenas que ficaram sozinhas após a execução dos pais ou até as que também foram levadas aos centros de detenção. “Os apropriadores na Argentina pegavam os filhos de quem eles mesmos haviam assassinado, com a ideia de oferecer uma criação que os convertesse em ‘argentinos de fato e de direitos’”, afirma Armando Kletnicki, psicanalista e chefe de trabalho da Cátedra de Psicologia, Ética e Direitos Humanos da UBA. CHRIS DEVERS/FLICKR Infância sob amarras Acomodo-me em uma poltrona e procuro por Claudia. Ela está no balcão do café já buscando seu pedido e, em poucos minutos, me vê e vem a meu encontro. Ela carrega uma bandeja com um pedaço de bolo e um suco de laranja, além da sutil gentileza de trazer consigo dois copos. Me oferece o suco, eu agradeço, mas digo que não quero. Estou um pouco nervosa, porque ela é a primeira apropriada com quem eu falo. E é um tema delicado. Sugiro que comecemos e ajusto a câmera no tripé e o microfone em cima da mesa. Claudia para de comer o bolo e junta suas mãos sobre os joelhos. Ajeita a postura, e também parece um pouco apreensiva, mas mais pela presença da câmera do que pela minha. Peço a ela que se apresente e faço as primeiras perguntas. Estamos nos conhecendo ali, aos poucos, apesar de estarmos falando muito mais dela do que de mim. E eu já conheço boa parte de sua história. Mas agora é diferente; é Claudia quem me conta as coisas que viveu. É ela quem conta que foi apropriada por um tenente-coronel e sua esposa quando tinha oito meses de idade, em novembro de 1978, embora não se lembre. Viveu toda sua infância sob os cuidados de um membro da inteligência do Exército e durante a ditadura que havia sequestrado e desaparecido com seus pais, Pepe e Gertrudis. É Claudia quem conta que, aos oito meses, foi levada ao centro clandestino Olimpo, a oeste da cidade de Buenos Aires, onde um médico cardiologista falsificou sua certidão de nascimento e, junto a um policial, a entregou a seus apropriadores. Quando pergunto sobre sua criação, ela a caracteriza como ‘estranha’. O tenente-coronel e sua esposa criaram Claudia como filha única em um domo de superproteção – e mentiras. Balançando a cabeça como quem lamenta uma lembrança, ela conta que ouvia em casa que os militares travavam uma guerra contra os subversivos, que queriam impor o comunismo na Argentina. O discurso do militar a quem ela chamava de pai era de que eles haviam salvado o país e agora os subversivos e as “loucas da Praça de Maio” tentavam se vingar. Sempre com uma expressão tranquila – e uma voz que às vezes se eleva somente para se sobrepor aos barulhos do café em que estamos –, Claudia fala sobre seus medos de criança. Perder sua suposta família e acabar sozinha, já que seus apropriadores tinham em torno de 50 anos quando a levaram consigo ainda bebê. Para ela, o que sustentou sua apropriação por tanto tempo – e certamente continua a manter tantas outras por aí – foi a criação de um vínculo de dependência emocional quase inabalável junto aos apropriadores: o medo de perdê-los, decepcioná-los e deixá-los. E, por mais que eu já tivesse lido sobre isso, ouvir diretamente de quem viveu esse fardo na pele é sentir mais de perto os danos que o plano sistemático de apropriação causou em uma geração de argentinos. Eu tinha cinco meses quando uma operação realizada na casa em que vivíamos matou minha mãe e uma família com duas crianças de três e cinco anos. Minha mãe havia me posto em um armário no quarto e foi isso que me protegeu um pouco dos gases e me salvou das balas. Depois de quatro meses no hospital com custódia policial, o juiz de menores, que sabia de tudo desde o início, me entrega a uma família que ele conhecia. Durante todo esse tempo nada foi feito para buscar minha família biológica. Manuel Gonçalves Granada Neto de número 57 restituído pelas Abuelas de Plaza de Mayo A adoção fraudulenta usada como método Não só médicos e militares participaram da execução do plano de roubo de meninos e meninas na Argentina. O processo teve o consentimento de juízes e escrivães de cartórios civis que davam prosseguimento a processos ilegais de adoção, falsificavam registros de nascimento ou simplesmente faziam vista grossa à inconsistência de dados e documentos. Ou seja, em muitos casos era possível suspeitar da origem daquela criança em processo de adoção, mas havia conivência jurídica com o plano dos militares. Segundo as Abuelas de Plaza de Mayo, que receberam cerca de 500 denúncias de casos de apropriação, houve quatro formas de roubo. Muitas crianças foram apropriadas pelos envolvidos ou responsáveis pelo desaparecimento ou morte dos próprios pais ou por cúmplices que atuaram no plano de apropriação. Pessoas que conheciam a origem da criança, mesmo sem estar envolvidas na execução prática dos crimes, também registraram meninas e meninos como filhos próprios a partir da falsificação de nomes e datas de nascimento. E existiram ainda muitos casos de adoção, nos quais nem sempre foi possível confirmar o quanto os pais adotivos sabiam ou tinham condições de suspeitar da origem das crianças. Há os casos de adoções de boa fé, em que a família não escondeu o que sabia dos filhos adotivos e colaborou com as investigações das Abuelas, que procuravam pelos seus netos. Mas mesmo assim o processo é considerado fraudulento; afinal, ninguém encaminhou aquelas crianças para adoção. Elas foram forçadas a enfrentar uma condição que não as contemplava. A grande diferença é que essas crianças foram restituídas às suas verdadeiras identidades tão logo se soube quem eram, como é o caso de Tatiana e Laura Sfiligoy , as primeiras netas restituídas pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Abuelas de Plaza de Mayo e alguns dos netos já recuperados reunidos na sede da associação, incluindo Laura (à esq. do centro da foto, em frente à mesa) e Tatiana Sfiligoy (atrás da menina de branco, na lateral da mesa) ARCHIVO ABUELAS Mecanismos de defesa ​ Para a psicanalista María Elena Domínguez, que atua no Centro de Atenção Psicológica pelo Direito à Identidade, a apropriação está relacionada a forçar papéis e funções parentais que não existem. “O que o apropriador tenta é criar um laço em que considera a criança um objeto, um objeto de seu discurso”, diz ela, que também participa da Cátedra de Psicologia, Ética e Direitos Humanos da UBA. Os efeitos de uma infância apropriada variam de caso a caso. Um deles pode ser a dificuldade de verbalizar e expressar sensações e angústias de um momento traumático. Uma criança pequena que presenciou a execução ou sequestro dos pais e não domina a comunicação verbal vai registrar aquele episódio de alguma forma. “Considerando que as memórias se constroem a partir de uma lógica entre pensamentos e palavras, algo que aconteceu muito precocemente na vida de quem ainda não domina a linguagem fica como uma marca, mas como se fosse uma marca direta no corpo mesmo”, explica o chefe da Cátedra, Armando Kletnicki. Para lidar com episódios traumáticos, dois mecanismos de defesa muito comuns observados na psicologia são o esquecimento e a negação. Domínguez cita o caso de Paula Eva Logares, que foi a primeira neta recuperada com a ajuda da ciência. Os apropriadores da criança a registraram como filha própria e recém-nascida, embora ela já tivesse quase dois anos de idade. “Para viver com os apropriadores, essa menina teve que esquecer aqueles 23 meses vividos até ali. Então, há algo nesse esquecimento que vai contra a imposição de uma outra realidade”, afirma a psicanalista. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ Já a negação pode aparecer de maneira sintomática no futuro, apesar de também ser um método de se proteger diante de traumas. Se um adolescente ou jovem criado e formado por um grupo familiar começa a ser confrontado por provas irrefutáveis de que aquela não é sua família biológica e, pior ainda, que aqueles que o criaram fizeram parte do grupo de repressores que podem ser os assassinos de seus pais biológicos, a primeira opção não é aceitar essas informações. “Se eu tenho duas representações que colidem, eu preciso negar uma para sobreviver. Então, rejeito o que está sendo dito”, afirma Kletnicki. ​ ​ O tempo não se devolve ​ Até que se descubra a verdade a respeito da própria origem, o crime sobre os apropriados continua sendo cometido. A cada dia que se escolhe continuar mentindo para uma criança sobre sua história, os efeitos de uma infância apropriada se expandem, afirmam os psicólogos. “Eles escolheram sustentar isso durante 21 anos da minha vida, dizendo que me amavam, mas, na verdade, protegendo a si mesmos de uma decisão que haviam tomado conscientemente aos 50 anos de idade”. Essa é Claudia Victoria Poblete Hlaczik, neta de número 64 restituída pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Além dela, as Abuelas contam até agora 131 casos resolvidos. Isto é, 132 histórias de gestações e crianças que haviam sido escondidas da sociedade e das famílias dos desaparecidos e foram descobertas e encontradas. Restituir é devolver algo ao lugar de onde se tirou e reparar os danos que isso pode ter causado, define Armando Kletnicki. Se alguém rouba um carro e bate com ele, por exemplo, a restituição seria devolver o carro após feitos os consertos de uma batida. Mas como isso seria feito com uma pessoa que teve mais do que bens materiais roubados, teve sua própria história de vida apropriada? “Com as pessoas, não há maneira de voltar atrás como se fossem um objeto que você deixa em um mecânico, arrumam e te devolvem”, diz o psicólogo. “O tempo não se devolve, nem os processos que o tempo formou. Não é possível haver crescido com determinadas experiências e apagar isso e começar de novo do lugar onde deveria ter estado.” Neste site, os termos em português “restituição”, “restituído” e “restituir” referem-se ao conceito de restituición de identidad usado pelas Abuelas de Plaza de Mayo. O psicanalista também se questiona sobre o número de netos ainda não encontrados, que são cerca de 370. O que isso pode dizer em relação às apropriações? Que elas tiveram êxito? Como se em alguns casos, mesmo que sob um contexto de mentiras, crianças tenham sido capazes de se construir como sujeito, e hoje pessoas adultas tenham convicção de que não querem explorar seu passado. Ou seria justamente ao contrário? Como se os adultos de hoje não tenham conseguido se desenvolver suficientemente para chegar a perguntar-se quem são. “Isso seria fruto de uma lógica de criação que os condenou a ser objetos do outro. Mas não temos essa resposta”, afirma Kletnicki. Paula Eva Logares junto à sua avó Elsa Pavón ABUELAS DE PLAZA DE MAYO/Fotografías de años en lucha

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