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31 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Buscarita | Abuelas de Plaza de Mayo, direitos humanos e a ciência

    Diante do roubo de crianças durante a ditadura militar argentina, mães e avós se uniram em busca dos netos e recorreram à genética para encontrá-los. Mulheres como Buscarita Roa seguem até hoje na luta A ciência aliada aos direitos humanos Como as Abuelas de Plaza de Mayo recorreram à genética para enfrentar o plano de roubo de crianças da ditadura argentina 140 é o número de casos de apropriação de crianças já resolvidos pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Com a ajuda do Banco Nacional de Dados Genéticos, elas ainda seguem em busca de outras centenas de netos tomados de suas famílias biológicas durante a ditadura e criados por pessoas com as quais não tinham nenhum vínculo leia algumas histórias Apro pri a ção é o termo que designa o processo de roubo de crianças sistematicamente realizado pelos militares durante a ditadura argentina. O plano teve a conivência e até participação de outros setores da sociedade, como a medicina, o poder judicial e orfanatos. As Abuelas de Plaza de Mayo estimam que 500 crianças tenham tido as identidades, famílias e infâncias roubadas O plano dos militares leia mais 1987 é o ano em que o Banco Nacional de Dados Genéticos foi fundado para ajudar na recuperação de crianças apropriadas pelos militares. De lá para cá, novas tecnologias e comissões foram desenvolvidas para aprimorar a busca Contexto Genética Passo a passo Lenço branco é o símbolo da luta das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo, que se organizaram como duas associações em abril e outubro de 1977, respectivamente. As avós surgiram após perceberem a necessidade de procurar também seus netos, sem esquecer dos filhos. Tentaram diferentes estratégias de busca, inclusive incorporando o papel de detetives, até que conseguissem a ajuda da ciência conheça as Abuelas Busca rita é o nome da mulher que inspira a criação deste site. Abuela de Plaza de Mayo, Buscarita Roa buscou sua neta durante 21 anos até que finalmente a reencontrou em 2000. Com um nome de batismo premonitório, a Abuela chilena teve uma vida permeada por reencontros: buscou e foi buscada. E segue na luta para identificar as centenas de netos que ainda faltam ser encontrados quem é Buscarita sobre o tema como ajudar

  • Buscarita | Ainda desaparecidos

    Apesar dos avanços nas buscas das Abuelas de Plaza de Mayo, ainda faltam encontrar cerca de 400 netos que foram apropriados quando crianças durante a ditadura militar argentina Ainda desaparecidos Nélida Navajas, a avó de Miguel, também não chegou a localizar a neta ou neto desaparecido, que hoje em dia deve ter 45 anos. “Cada dia que passa sem frutos da busca é como uma gotinha que cai. Um dia não é nada, dois dias não são nada, nem uma semana. Mas quando começam a se acumular os meses e os anos, isso pesa, é uma carga”, afirma Miguel. “Eu vi a minha avó, que faleceu depois de ter buscado por mais de 35 anos, perder o ânimo.” A busca continua As Abuelas de Plaza de Mayo estimam que, durante a ditadura militar, 500 crianças tenham sido roubadas para serem criadas por outras famílias que não as suas. Destas, 140 já foram localizadas – algumas, na verdade, nem nasceram porque houve gestações de mulheres sequestradas que não chegaram ao fim, mas esses casos também são classificados como resolvidos porque se tem informações sobre seu paradeiro. Restam, portanto, pelo menos 360 casos ainda sem resposta. Um deles diz respeito ao casal Cristina Navajas e Julio Santucho. Ambos militavam pelo Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) e tinham dois filhos, Camilo e Miguel. Mas não sabiam que Cristina estava grávida do terceiro filho quando foi sequestrada em 13 de julho de 1976. Na verdade, ela já suspeitava, mas não deu tempo de confirmar. Depois de um tempo, sua mãe, Nélida Navajas, encontrou uma espécie de diário em que Cristina contava de um atraso na menstruação e dizia que faria um teste de gravidez. Segundo relatos de sobreviventes de centros de detenção pelos quais Cristina passou, ela de fato teve uma gestação e não estava mais grávida quando foi levada ao traslado final – termo que significava a morte –, em 1977. Julio e Nélida, então, como pai e avó, tinham mais uma pessoa para buscar: o filho ou a filha do casal. Quem me conta essa história é Miguel Santucho, segundo filho de Cristina e Julio, que busca o irmão ou irmã e atualmente trabalha na Casa por la Identidad, centro cultural das Abuelas de Plaza de Mayo que funciona em um dos edifícios do antigo centro de detenção ESMA. Foi aos dez anos que Miguel começou a entender a trajetória de luta de sua família e as consequências do roubo institucionalizado de crianças durante a ditadura. E ele garante que as emoções ao longo de quatro décadas de busca variaram muito. Quando criança, eram pensamentos pontuais e mais fantasiosos. “Nos aniversários e Natais, pensávamos o que meu irmão estaria fazendo, como seria… por um tempo eu desejei poder compartilhar as coisas com ele, guardava meus brinquedos na esperança de algum dia poder brincar com ele”, diz Miguel. Já na adolescência, os pensamentos eram mais constantes. Quando começaram a aparecer os primeiros netos, Miguel se agarrava à sensação ambígua de estar feliz por outras famílias ao mesmo tempo em que lamentava a cada restituição que não fosse de seu irmão ou irmã. “Isso me refrescava a dor”, conta. Quando adulto, o trabalho das Abuelas o ajudou a ver o processo com mais tranquilidade e amplitude. “Comecei a entender que a busca não poderia ser individual, porque não seria frutífera. A busca é coletiva, então estamos procurando todos os irmãos simultaneamente”, diz Miguel. Uma sala de partos. É assim que Lorena Battistiol Colayago define a sede das Abuelas de Plaza de Mayo. “Você está há 45 anos em uma sala de partos até que dizem: ‘nasceu’. E, então, se questiona: ‘é menino ou menina? Se parece mais com a mãe ou com o pai?’. Essas perguntas típicas de quando nasce um bebê são as que fazemos quando temos a notícia de um resultado positivo”, descreve ela. Ao longo de 20 anos de trabalho na instituição das Abuelas de Plaza de Mayo, Lorena presenciou muitos reencontros entre famílias e pessoas que recuperaram sua identidade. Mas ainda não recebeu a notícia pela qual espera desde que começou a se envolver com o tema da memória, verdade e justiça. Assim como Miguel, Lorena procura por um irmão ou irmã que deve ter nascido durante o cativeiro de sua mãe entre novembro e dezembro de 1977. Lorena conheceu o trabalho das Abuelas por causa de sua avó María Ángela Lescano. A Negrita, como era conhecida, denunciou às Abuelas o desaparecimento de sua filha, Juana Colayago, em 1978. A jovem de 26 anos estava grávida de seis meses quando foi sequestrada junto a seu companheiro Egidio Battistiol na zona norte de Buenos Aires. Ela passou a se envolver na luta das Abuelas aos 25 anos, depois que voltou à cidade natal da mãe e teve um “clique” de que seria útil na busca dos apropriados. “Eu fui até as Abuelas e disse que estava à disposição para o que elas precisassem”, conta Lorena, que hoje é diretora nacional de espaços de memória da Argentina. Depois, o que era disposição se transformou em trabalho do dia a dia, que durou duas décadas, até que foi convidada a trabalhar na Secretaria de Direitos Humanos, que também funciona na antiga ESMA. Atualmente, Lorena garante estar mais ponderada em relação à busca. Mas já imaginou de diferentes maneiras o momento em que lhe contam que seu irmão ou irmã foi encontrado. “Desde que tive meus filhos, sempre penso que no dia em que me avisarem, vou buscá-los para podermos ir à casa das Abuelas”, compartilha. Ao lado da irmã Flavia, ela permanece firme na tarefa de buscar o terceiro neto que a avó Negrita não conseguiu encontrar antes de falecer, em agosto de 2020. A busca pelo irmão é agora como uma missão deixada por Nélida a Miguel. “Claro que é difícil, mas por isso temos um grupo que se apoia, somos uma grande família nas Abuelas, já conhecemos quais podem ser as dificuldades de cada um, e é isso o que me permite dar esse relato hoje de forma habitual”, diz o filho de Cristina e Julio. “Sinto que ocupo um lugar que me permite transformar uma experiência tão terrível quanto o terrorismo de Estado e os sequestros da minha mãe e meu irmão em uma mensagem para passar adiante. É o que também me ajuda a enfrentar isso”, conclui. Julio Santucho e Cristina Navajas junto ao filho Camilo e Nélida Navajas Egidio Battistiol e Juana Colayago com a primeira filha do casal, Flavia Nélida Navajas buscou seu neto ou neta até o fim da vida, durante a qual se dedicou muito à luta das Abuelas María Ángela Lascano, a Negrita, morreu em agosto de 2020 antes de encontrar seu neto ou sua neta To play, press and hold the enter key. To stop, release the enter key. ARCHIVO ABUELAS ABUELAS/REPRODUÇÃO ABUELAs.ORG.AR ABUELAs.ORG.AR

  • Buscarita | Futuro das Abuelas de Plaza de Mayo

    Com cada vez menos Abuelas na ativa, a associação enfrenta um momento de transição geracional que, asseguram os netos, está garantida Futuro Reproduzir vídeo Ao longo de 45 anos de luta, as Abuelas de Plaza de Mayo passaram por diferentes situações, sensações e estratégias. O Banco Nacional de Dados Genéticos foi a solução mais eficaz para ir ao encontro dos netos e incentivar que eles também buscassem as Abuelas. Muitas delas tiveram a felicidade de rever os filhos de seus filhos após anos de apropriação, enquanto tantas outras partiram sem alcançar o reencontro. A instituição teve importantes perdas com o passar do tempo, sendo as mais recentes as mortes da histórica integrante Alba Lanzillotto, em junho de 2022, e de Delia Giovanola, uma das 12 Abuelas fundadoras, um mês depois. As centenas de mulheres que outrora compuseram a organização hoje são representadas por quatro delas: Sonia Torres, Ledda Carreiro, Estela de Carlotto e Buscarita Roa, cujas idades entre 85 e 93 anos não as impedem de se manter na ativa. E o que o futuro reserva para as Abuelas de Plaza de Mayo? Segundo Buscarita, a passagem de bastão para os netos já está encaminhada, e a associação será deixada em muito boas mãos. Mas enquanto existir uma Abuela, é ela quem manda . Envolvimento das famílias No comitê diretor das Abuelas de Plaza de Mayo, os netos restituídos já são maioria. Todas as terças-feiras são discutidas novas ideias e campanhas que deem prosseguimento à busca dos cerca de 370 netos desaparecidos. Os já recuperados acabam se envolvendo na luta por valorizarem a descoberta da verdadeira identidade, assim como aconteceu com eles. “Não é coincidência que a maioria dos netos tenha se dedicado a trabalhar em favor da justiça”, diz Victor Penchaszadeh, geneticista que participou do primeiro grupo que criou o índice de abuelidad . “Há alguns que dizem ‘bom, tenho esse compromisso porque tive os pais que tive, que estão desaparecidos’”, acrescenta. No caso do neto restituído Manuel Gonçalves Granada, seu primeiro envolvimento com as Abuelas foi a partir de uma produtora de publicidade que fazia peças audiovisuais e propagandas para televisão sob encomenda delas. “Depois, fui colaborando no que elas me pediam. Como eu podia contar minha história pessoal, e também do ponto de vista institucional, comecei a representar as Abuelas em muitos lugares”, conta ele, que trabalha na Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (CoNaDI), criada a pedido das avós em 1992. Outros colaboradores e organismos Também compõem o comitê diretor da instituição alguns outros familiares de desaparecidos, incluindo filhos que não foram apropriados e procuram por irmãos ou irmãs que nasceram em cativeiro ou foram sequestrados junto aos pais. A associação Abuelas de Plaza de Mayo tem ainda como base todos os colaboradores com quem foi criando laços ao longo dos anos de luta, como advogados, comunicadores, psicólogos e antropólogos que as ajudam no cotidiano e na organização das buscas. Além da transição geracional, o futuro das Abuelas está apoiado nos organismos criados por iniciativa delas. O Banco Nacional de Dados Genéticos vai continuar existindo mesmo depois das avós até que o último neto seja encontrado. A CoNaDI, importante canal para receber pessoas com dúvidas sobre sua identidade, é outro exemplo de ferramentas que ficam para a posteridade. Sociedade vigilante Mesmo com ondas de extrema direita, que tentam apagar ou questionar fatos históricos, a sociedade argentina é mais uma aliada conquistada pelas Abuelas. A conscientização de que a memória histórica e coletiva deve ser respeitada e mantida é parte do legado dessas mulheres – e também ajuda na construção de um futuro sólido. Reações diante de reduções de penas de já condenados por crimes durante a ditadura e pressão contra a impunidade são manifestações comuns e espontaneamente expressivas na Argentina. “Aqui há um grupo muito vigilante em relação ao que acontece com a justiça e os direitos humanos, que não se deixam pisotear”, afirma Victor Penchaszadeh. “Os heróis e heroínas são o povo organizado, são as Abuelas de Plaza de Mayo, são as Madres de Plaza de Mayo, são os cientistas que colaboraram e impulsionaram isso.” “Elas ficarão na memória dos que as conheceram, seguirão estando de outra maneira. Não com sua presença física, porque não são eternas, mas continuarão a partir do trabalho que fizeram.” María Elena Domínguez, psicóloga do Centro de Atenção Psicológica pelo Direito à Identidade, associado às Abuelas

  • Buscarita | Em busca dos 99,99%

    Desde antes da criação do Banco Nacional de Dados Genéticos, os processos metodológicos do órgão sofreram alterações e aprimoramentos. Entenda cada uma das tecnologias aplicadas na testagem genética feita no BNDG Em busca dos 99,99% Notícia de jornal Raquel procurava nos jornais todos os dias alguma possível informação sobre seu filho e sua nora, que esperavam um bebê quando foram sequestrados pelos militares. Em uma manhã de 1979, uma notícia chamou sua atenção. Mas não trazia exatamente pistas: tratava da história de um homem que negava ser pai de uma criança e foi submetido a um exame de sangue que acabou por confirmar sua paternidade. Raquel, então, deu um pulo da cadeira, como quem tem uma grande ideia, e foi correndo ao encontro das outras avós. Começava ali a jornada que revolucionaria as buscas feitas pelas Abuelas de Plaza de Mayo . A notícia de jornal inspirou as Abuelas a recorrerem à ciência para perguntar se era possível identificar netas e netos a partir de seu sangue. Elas pensaram que talvez os cientistas pudessem aproveitar a tecnologia usada na época nos exames de paternidade para confirmar parentesco com crianças com pais desaparecidos. O envolvimento dos cientistas Em alguns anos, após incontáveis viagens pelo mundo para buscar apoio internacional, as Abuelas procuraram o geneticista argentino Victor Penchaszadeh, na época exilado em Nova York, que as colocou em contato com outros cientistas. Posteriormente, se formaria um grupo de especialistas dedicados a responder ao questionamento daquelas avós que procuravam por seus netos. Depois de reuniões e mais reuniões – incluindo parte do simpósio anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) de 1984 –, as avós receberam a resposta que tanto queriam. Sim, era possível confirmar parentesco com possíveis netos só a partir do sangue delas e de outros familiares que estivessem vivos. “Então, estava criado o índice de abuelidad , que foi capaz de estabelecer as chances de que a compatibilidade entre marcadores genéticos de uma criança e dos supostos avós fosse efetivamente definida por relação de parentesco, e não simplesmente por casualidade ou azar”, explica Victor Penchaszadeh. Estela de Carlotto , presidenta das Abuelas de Plaza de Mayo, e Victor Penchaszadeh , geneticista que ajudou as avós no desenvolvimento do índice de abuelidad I. Antígenos de histocompatibilidade Baseados no que já se tinha a partir dos exames de paternidade, os primeiros estudos do índice de abuelidad se debruçaram sobre tipos sanguíneos e os chamados antígenos de histocompatibilidade (HLA, na sigla em inglês). O DNA ainda não era analisado diretamente, então restava aos cientistas observar o produto de sua expressão. “Grupos sanguíneos e antígenos de histocompatibilidade são produzidos por genes, que são a forma como está organizado o DNA. Ou seja, é uma maneira de estudar os genes a partir de seus produtos”, esclarece Victor Penchaszadeh. Analisar o tipo de sangue ajuda a excluir vínculos, mas não a confirmá-los. Por exemplo, se uma pessoa é do grupo AB e um suposto progenitor é do grupo O, pode-se excluir a possibilidade de parentesco. A chance do vínculo biológico existe somente se o suposto progenitor tiver o tipo A, B ou AB, mas isso também não é suficiente para afirmar que ele seja o pai ou a mãe da pessoa, já que o sistema sanguíneo ABO tem uma variabilidade genética limitada. Ou seja, muita gente tem tipos sanguíneos compatíveis mesmo sem qualquer parentesco. “Então, como você vai distinguir uma pessoa da outra por uma análise que é um pouco diferenciativa?”, questiona o médico argentino. Os antígenos de histocompatibilidade, por sua vez, proporcionam maior precisão nas análises por serem moléculas com milhares de variantes. Importantes para identificar partículas estranhas ao corpo, os HLA são moléculas proteicas fundamentais no transplante de órgãos. São eles que ajudam os médicos a prever as chances de que o organismo do receptor aceite ou rejeite o órgão transplantado. No caso da busca das Abuelas, a variabilidade dos HLA tornava mais difícil a ocorrência de falsos positivos. Isso significa que, diferentemente da análise a partir de tipos sanguíneos, era menos provável que duas pessoas sem parentesco tivessem marcadores de HLA muito semelhantes. Hospital Durand O índice de abuelidad , apesar de funcionar bem na teoria, ainda enfrentava obstáculos para ser executado. O principal desafio era a necessidade de ter amostras de sangue fresco para as análises, o que precisaria ser feito por um laboratório especializado. Foi então que, dos Estados Unidos, o imunogeneticista chileno Pablo Rubinstein informou às Abuelas que o Hospital Durand, em Buenos Aires, dispunha de um laboratório moderno e equipado para dar prosseguimento aos testes genéticos do índice de abuelidad. Sob a chefia de Ana María Di Lonardo, foi no departamento de imunologia do hospital que funcionou a primeira sede do Banco Nacional de Dados Genéticos. A primeira neta recuperada com a ajuda da ciência Paula Eva Logares tinha quase dois anos quando foi sequestrada junto a seus pais Mónica e Claudio, em 1978. Depois de ter sido localizada na casa do então subcomissário da polícia de Buenos Aires, uma denúncia foi documentada em um juizado federal no primeiro dia da volta da democracia, em 10 de dezembro de 1983. A justiça autorizou que se extraísse uma amostra de sangue de Paula para compará-la com as de sua avó e tios maternos e avós paternos. Após resultados positivos da análise, a Corte Suprema de Justiça argentina ordenou em 1984 que Paula voltasse a viver com seus avós. Quando retornou à casa onde vivia, Paula foi até a porta do quarto que havia sido seu, olhou para a cama e perguntou: “Onde está meu ursinho de pelúcia?”. Testar além de uma família As análises seguintes à de Paula Logares também foram feitas de forma individual, ou seja, uma família suspeitava que determinada criança fosse um neto apropriado, fazia uma denúncia e abria-se o processo que poderia levar aos testes genéticos. Mas, com o passar do tempo, as Abuelas e os cientistas foram percebendo que isso gerava perda de informação e de tempo. Faltava um banco onde se pudesse depositar as informações genéticas das então mais de 300 famílias que buscavam netos. Dessa forma, quando um suposto neto desse seu sangue para a análise, seria possível compará-lo não apenas com o de uma avó ou parente, mas de todos os grupos familiares que tivessem deixado suas amostras no banco. Assim criava-se o Banco Nacional de Dados Genéticos. Ou seja, antes mesmo da criação do Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), que ocorreu só em 1987, o índice de abuelidad já estava sendo utilizado para restituir identidades e recuperar netas e netos apropriados. A tecnologia responsável por confirmar essas relações de parentesco foi acompanhando os estudos genéticos mundiais, que naquela época ainda eram incipientes no campo das moléculas de DNA. REDBIOÉTICA/REPRODUÇÃO II. DNA nuclear Quando um espermatozóide fecunda um óvulo, o núcleo do zigoto é constituído 50% pelo DNA do homem e 50% pelo da mulher. Como os genes do homem e da mulher também são constituídos meio a meio pelas informações genéticas de seus respectivos progenitores, o DNA nuclear do novo embrião é formado por ¼ de genes de cada um de seus avós. Isso significa que os milhares de genes que uma pessoa carrega têm em sua composição dados de seus ascendentes. Com os avanços dos estudos sobre o DNA, a grande novidade do Banco no início dos anos 90 foi incorporar a tecnologia capaz de analisar diretamente esses genes. Assim, os testes ganhavam maior precisão, já que era possível escolher os segmentos genéticos com mais variabilidade entre a população. “É muito mais exato, mas não porque os marcadores de histocompatibilidade fossem ruins, e sim porque a evolução da ciência fez com que tivéssemos técnicas e ferramentas muito melhores”, diz Florencia Gagliardi, cientista do BNDG há mais de 30 anos. Essas análises eram e ainda são baseadas em fórmulas estatísticas que consideram a frequência do segmento analisado na população argentina. Isso é importante justamente para calcular a probabilidade de que uma semelhança genética seja por casualidade ou de fato por vínculo biológico. III. DNA mitocondrial Gagliardi conta que o BNDG registra o perfil genético completo de cada uma das amostras de sangue que chegam, o que significa que, além do DNA nuclear, os cientistas fazem análises sobre o DNA mitocondrial e os cromossomos sexuais. Isso aumenta os parâmetros para que um parentesco seja confirmado e se alcance os 99,99% de chance de que uma pessoa seja neta de uma das Abuelas de Plaza de Mayo. O DNA mitocondrial foi especialmente revolucionário para os trabalhos do Banco principalmente por ser um genoma exclusivo da linha materna de um indivíduo. Enquanto um espermatozoide vai transmitir apenas seu núcleo ao embrião – por sua constituição ser praticamente puro núcleo –, o óvulo tem um citoplasma, que contém elementos nutritivos e as organelas. Dentre elas estão as mitocôndrias, responsáveis principalmente pela respiração celular e que contêm um genoma próprio. Embora também sofra divisões e até mutações, o DNA mitocondrial se mantém como um bom marcador para traçar a linhagem materna das espécies, incluindo a humana. Avós, tios, primos e irmãos por parte de mãe herdam esse genoma praticamente idêntico a cada geração, independentemente de serem homens ou mulheres. Mesmo que esteja em condições inadequadas ou em pouca quantidade , o DNA mitocondrial apresenta alta sensibilidade para ser analisado. Por isso, o vínculo biológico pode ser descartado entre dois supostos parentes maternos cujo material genético das mitocôndrias apresente diferenças. Coordenada por Florencia Gagliardi, a área de DNA mitocondrial foi incorporada ao BNDG a partir de 1992 pela cientista norte-americana Mary Claire-King. “Se eu fosse uma pessoa religiosa, estaria convencida de que Deus fez o DNA mitocondrial especificamente para que as Abuelas de Plaza de Mayo o usassem”, disse a geneticista ao jornal Perfil em agosto de 2014. IV. Cromossomos sexuais Se restarem dúvidas na análise mesmo após a comparação entre o DNA nuclear e mitocondrial – ou se não houver amostras de sangue daqueles que seriam os parentes maternos –, os cientistas podem recorrer ainda aos cromossomos sexuais, que podem ser XX ou XY em uma pessoa. Todas as Abuelas de Plaza de Mayo carregam o par XX e só podem ter repassado aos filhos o cromossomo X. Já os maridos delas, por carregarem o par XY, podem ter transmitido adiante tanto o cromossomo X quanto o Y. Portanto, uma neta apropriada que tem dois cromossomos X pode ter recebido um deles tanto de sua avó quanto de seu avô maternos enquanto o outro só pode ter vindo de sua avó paterna. Já um neto apropriado tem o mesmo cromossomo Y de seu pai, do pai de seu pai, do avô paterno de seu pai, e assim sucessivamente. Esse método é utilizado caso seja necessário comparar segmentos específicos diante da disponibilidade das amostras de parentes disponíveis no Banco. “Se possível, o grupo de antropologia forense do Banco exuma a pessoa, pega a amostra e, assim, vamos completando as árvores genealógicas”, afirma. O BNDG conta com uma equipe de antropólogas forenses que analisam o local e as condições em que a pessoa foi enterrada antes de exumá-la e coletar dados. “Aqui, a amostra é analisada por um grupo de especialistas em análises de restos ósseos e material de baixa quantidade de DNA”, acrescenta Gagliardi. Como milhares de desaparecidos foram mortos e enterrados sem o conhecimento de suas famílias ou até sem a própria identificação, localizar os corpos de familiares “faltantes” no banco de dados genéticos é um desafio. É com isso que trabalha a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), ONG dedicada a identificar os desaparecidos durante a ditadura a partir de exumações. No caso em que a EAAF confirma a identificação do corpo de uma mãe ou pai de um dos netos buscados pelo Banco, as informações são compartilhadas com os cientistas do BNDG. “Se identificarem uma mulher e descobrirem que ela morreu quando estava grávida, ou seja, que o bebê nunca chegou a nascer, então o caso é dado como encerrado, porque a busca pelo neto foi resolvida”, diz Gagliardi sobre como o trabalho do EAAF ajuda o Banco. Dos 140 casos considerados resolvidos pelas Abuelas de Plaza de Mayo, 17 foram gestações que não chegaram ao fim, seja porque as mães perderam seus bebês no período em que estiveram sequestradas, seja porque foram mortas antes de darem à luz. A ciência ajuda as Abuelas. Busca a maneira, cria cálculos estatísticos para ajudá-las. Isso é algo inédito no mundo, porque geralmente há avanços científicos e as pessoas dizem 'olha, isso pode nos servir'. Aqui, aconteceu o contrário: elas se aproximaram dos cientistas, e os cientistas fizeram com que a ciência as ajudasse.” Florencia Gagliardi , chefe da área de DNA mitocondrial e geneticista do BNDG por mais de 30 anos Antropologia forense Quanto mais familiares de um grupo estiverem cadastrados no BNDG, mais chances eles têm de encontrar um neto a cada vez que informações de uma nova pessoa forem inseridas. “Se o neto procurado por esse grupo vier ao Banco, é estatisticamente muito provável que o identifiquemos facilmente”, afirma Florencia Gagliardi. Mas há muitos casos em que o grupo familiar está dizimado e poucos parentes deixaram suas amostras no Banco, o que dificulta o potencial matemático de identificação. “Então, tratamos de buscar se existe a possibilidade de agregar novos marcadores ao Banco”, conta a responsável pela área de DNA mitocondrial. Os cientistas criam simulações que informam quais familiares poderiam aumentar esse poder estatístico e tentam colher os respectivos dados genéticos inclusive de pessoas já falecidas. Durante a ditadura, milhares foram enterrados como NN (não nomeados). Na foto, Madre da Plaza de Mayo observa o resultado de exumações em um cemitério de Santa Fé ROBERTO PERA/EAAF/REPRODUÇÃO

  • Buscarita | Contexto de criação do BNDG

    Criado apenas quatro anos após o fim da ditadura, o Banco Nacional de Dados Genéticos ajudou a agilizar a identificação de possíveis netos apropriados durante a ditadura. Especialistas e personagens explicam os fatores que contribuíram para sua rápida implementação Contexto de criação O Banco Nacional de Dados Genéticos foi criado graças à luta das Abuelas de Plaza de Mayo, que surgiram a partir das mães que procuravam seus filhos desaparecidos. Um dia, uma delas se questionou sobre o paradeiro também do neto pequeno e perguntou quem mais buscava crianças sequestradas ou bebês recém-nascidos. Doze mulheres se apresentaram e criaram, então, as Abuelas. Diante de tantas respostas negativas das autoridades sobre o paradeiro de seus filhos e netos, essas mulheres resolveram recorrer à ciência para desenvolver outra maneira de buscá-los. O INÍCIO DE TUDO Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado A CIÊNCIA RESPONDE 'SIM' Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado As viagens das Abuelas renderam frutos nos Estados Unidos, onde se encontraram com o geneticista argentino Victor Penchaszadeh, que estava exilado em Nova York. O cientista as colocou em contato com a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), que ajudou a formar um grupo que se comprometeu a buscar respostas à demanda das avós. Eles, então, conseguiram desenvolver o índice de abuelidad , por meio do qual seria possível confirmar vínculos biológicos entre crianças e avós sem a presença da geração intermediária. A partir daí, a criação do Banco era questão de tempo. O Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG) foi criado em 13 de maio de 1987 pela lei nº 23.511. Exatamente três anos e sete meses depois do fim da ditadura, o Congresso argentino determinava a regulamentação do órgão que viria a se tornar o grande trunfo da busca pelos netos das Abuelas de Plaza de Mayo. Personagens históricos explicam como a perda de poder dos militares, a pressão social, a transição democrática, a ciência e, é claro, as Abuelas garantiram a criação do BNDG imediatamente retomada a democracia. UM MILAGRE EXPLICADO Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado OS RESULTADOS Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado O BNDG significa para muitos a possibilidade de encontrar-se não apenas com sua família biológica, de que foram separados quando criança, mas principalmente com a sua verdade, identidade e origem. O órgão teve sua legitimidade por vezes questionada, mas segue como referência no processo de memória, verdade e justiça da Argentina. Quatro netos restituídos pelas Abuelas comentam impressões, processos e significados que a análise genética realizada pelo Banco trouxe às suas vidas. Créditos dos vídeos

  • Buscarita | Quem é Buscarita

    Inspiração para o título do site, Buscarita Roa é a vice-presidente em atividade das Abuelas de Plaza de Mayo. Com um nome premonitório, a avó chilena que se mudou para a Argentina tem uma vida repleta de buscas A mulher por trás do nome do site A chilena Buscarita Imperi Roa vive na Argentina há 50 anos. Mudou-se para o país vizinho para viver junto ao filho Pepe, que havia ido para lá em 1971 com o objetivo de fazer um tratamento ortopédico. Durante a adolescência, Pepe sofreu um acidente que o fez perder as duas pernas. Ao chegar no hospital para ver o filho, a primeira coisa que Buscarita ouviu foi: “Mãe, não fique triste nem chore. Eu vou ser a primeira pessoa a correr com pernas ortopédicas”. E lá foi ele, aos 16 anos, em busca do feito na Argentina. Em 28 de novembro de 1978, durante a ditadura militar, Pepe e sua companheira Trudy foram sequestrados em Buenos Aires. A neta de Buscarita, que tinha apenas oito meses, foi junto dos pais até um campo de detenção. Lá, permaneceu por três dias até que um militar a levasse para casa para registrá-la como filha própria. E assim Claudia Poblete Hlaczik foi criada. Na época, Buscarita trabalhava como supervisora da limpeza em um prédio do governo que ficava muito próximo à Praça de Maio, no centro de Buenos Aires. Sem respostas sobre o paradeiro do filho, nora e neta nas muitas delegacias pelas quais passou, Buscarita resolveu um dia se aproximar daquelas mulheres que caminhavam ao redor da praça e, a partir daí, se uniu à luta das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo. Buscarita seguiu em sua busca incessante por anos até que Claudia fosse encontrada e identificada como filha de José Poblete Roa (o Pepe) e Gertrudis Hlaczik (a Trudy), em fevereiro de 2000. A reaproximação entre avó e neta foi lenta, mas a Abuela respeitou o tempo da jovem que havia passado mais de duas décadas acreditando que sua identidade era outra. Um dia, ambas conversavam sentadas e Claudia se levantou, pegou na mão de Buscarita e a fez levantar para que dessem o primeiro abraço. E a neta disse: “Obrigada, vó, por ter me buscado e me dado a chance de conhecer minha verdadeira identidade”. Luta, família e trabalho Ao longo dos anos em que buscava por Pepe, Trudy e Claudia, a Abuela chilena tinha que conciliar o trabalho com os cuidados dos outros filhos e da casa, que era muito distante do centro de Buenos Aires. “Para as Abuelas mais pobres era muito mais difícil, porque tínhamos que levantar às 5 da manhã, pegar um trem, vir trabalhar, escapar do trabalho, fazer a ronda da praça e voltar”, conta Buscarita. Depois, ela chegava tarde em casa e deixava prontas as refeições para os filhos comerem no dia seguinte. Da busca coletiva feita pelas Abuelas, Buscarita ganhou muitas companheiras para a vida. “Tínhamos reunião toda semana, depois começamos a tomar um cafezinho, um chá, a rir, a chorar, todas juntas. E assim fomos virando amigas, amigas, amigas”, diz ela. Mesmo depois de encontrar Claudia, Buscarita não deixou de buscar os outros netos apropriados. “Não importava que não fôssemos a avó, encontrar um neto era como reencontrar o nosso. Era uma festa, o recebíamos com todo o amor do mundo”, conta. Hoje em dia, ela é a única avó que continua indo quase todos os dias à casa das Abuelas, em Buenos Aires. A presidenta Estela de Carlotto segue trabalhando de sua casa, em La Plata. Respectivamente de Córdoba e Mar del Plata, Sonia Torres e Ledda Barrero são as outras avós que completam o quarteto que permanece em atividade. Ambas ainda não encontraram os netos ou netas que devem ter nascido durante o cativeiro de suas filhas, mas seguem firmes na luta. Uma vida de buscas Os pais de Buscarita lhe deram um nome que foi premonitório em relação à sua vida. Uma década antes de localizar Claudia, a chilena teve outro reencontro potente. Mas nesse caso era ela quem estava sendo buscada. Um dia, uma colega de escola de Fernando, um de seus filhos, ouviu em uma rádio do Chile que dois irmãos procuravam por uma mulher chamada Buscarita e disse a ele que devia ser sua mãe. Ele respondeu que não podia ser, porque sua mãe não tinha irmãos. A colega, convicta de que não devia haver muitas pessoas chamadas Buscarita pelo mundo, insistiu na informação e convenceu Fernando a entrar em contato com a rádio. Sim, era ela. Aos 50 anos, Buscarita descobriu ter dois irmãos e, enfim, os conheceu. Eles foram separados após a morte dos pais de Buscarita em um acidente de carro. Ela tinha três anos e foi viver com sua avó paterna, enquanto seus irmãos mais velhos – que eram filhos da mãe de Buscarita, mas de outro pai – passaram a morar com a família paterna. A rádio passou o telefone do tio de Fernando, que ligou para ele e ouviu, do outro lado, alguém dizer aos gritos: “Encontrei minha irmãzinha, encontrei minha irmãzinha!”. PAULA SANSONE E VALERIA DRANOVSKY/ANCCOM-UBA Buscarita Roa junto à neta e à bisneta, Claudia Poblete e Guadalupe Álvarez Como é ter um nome que tem tudo a ver com as buscas? Buscarita Roa Sim! Todos me dizem o mesmo. Acontece algo muito estranho comigo, porque Buscarita… o ‘bus’ vem de ‘buscar’. Meus irmãos me buscaram, eu busquei meu filho e minha neta. Então, bem, meu nome faz todo sentido. Buscarita, muito obrigada! Buscarita Roa Não, por favor, obrigada a você pelo que está fazendo. Meu encontro com Buscarita: ternura de avó Demoro para encontrar o número certo, mas não o suficiente para me atrasar. Quando me localizo, toco a campainha e entro. Não à toa chamam a sede da associação de casa das Abuelas. A sensação de casa vem tanto da madeira que resistiu com o passar dos anos quanto da presença calorosa das muitas pessoas que entram e saem pela porta. É terça-feira, dia da reunião semanal do comitê diretor, então aproveito para ficar atenta à chegada dos netos com os quais ainda não consegui marcar entrevistas. Ouço parte da conversa de telefone entre a pessoa que me recebeu e o que deve ser a Buscarita do outro lado da linha. Sou informada de que ela acabou de entrar no táxi, mas que não deve demorar muito pois mora perto dali. Sim, vou conversar com uma Abuela de Plaza de Mayo e não me aguento de animação por dentro, mas tento não deixar transparecer. Quando ela chega, já estou com a câmera posicionada depois de mexer um pouco nas poltronas da sala para ajustar o enquadramento. Depois de me cumprimentar, ela se senta em outra poltrona, então pergunto se ela se incomoda em mudar para a outra, no canto da sala. Ela aceita com simpatia e começamos a entrevista. Fico preocupada em tomar muito de seu tempo e cansá-la (como fiz com o Victor após quase três horas de entrevistas que tiveram de ser divididas entre dois dias). Mas a cada resposta que ela conclui, solta um sorriso que indica estar tudo bem. Depois da última pergunta, agradeço pela entrevista e me levanto para cumprimentá-la com as mãos, o que logo se torna um abraço afetuoso. Com uma ternura bem típica de avós. Saímos da sala, e eu já estou tomada por uma sensação de que meu trabalho está dando certo. Na verdade, ali, depois daquela entrevista, a sensação é de que já deu certo. A conversa de 30 minutos com Buscarita me serve de combustível para seguir firme o ritmo de apuração nos quatro dias que me restam em Buenos Aires. Dos quatro netos com quem combinei de falar, só consegui encontrar-me com uma – que é justamente Claudia, a neta de Buscarita. Mas aproveito a visita à casa das Abuelas para esperar a chegada dos outros membros do comitê diretor que vêm para a reunião. Ainda é cedo, porém; a reunião só começa em duas horas. Espero em uma cadeira ao lado da porta e me atento à dinâmica daquele lugar. A campainha toca, alguém atende e abre a porta de fora e, depois de alguns segundos, também a de dentro. As pessoas que já estão na casa se dividem entre as várias salas e corredores que existem nela, mas ressurgem na sala principal toda vez que alguém chega. Quem entra é recebido com sorrisos e abraços, como se fosse sempre aniversário de alguém. Eles parecem felizes por estarem ali. Em uma dessas vezes, Buscarita reaparece e me vê novamente. Demonstra surpresa por eu ainda estar ali e preocupação por ser hora do almoço e eu ainda não ter comido. Vem até mim, toca no meu ombro e me oferece uma bolacha, um chazinho ou um mate. Sinto como se eu estivesse com a minha avó. Paro para pensar como é possível que aquela senhora, que tem uma faixa de cabelos brancos e um lenço colorido enrolado no pescoço, nunca tenha perdido a ternura apesar das dificuldades da vida, da perda do filho para a ditadura e da apropriação da neta. E lembro-me do que ela disse que a motiva a seguir trabalhando nas Abuelas: o amor. O amor aos filhos, o amor aos netos e o amor à vida, “porque enquanto se estiver vivo, é possível seguir fazendo coisas”.

  • Buscarita | História do BNDG

    Desde antes de sua criação, em 1987, confira os principais fatos sobre o Banco Nacional de Dados Genéticos Linha do tempo História do BNDG entre 1976 e 2015 Fonte: "Ciencia x la identidad - Historia viva del Banco Nacional de Datos Genéticos" Arte: Mathias Gatti

  • Buscarita | Sobre o tema

    Confira indicações de filmes e livros a respeito das apropriações durante a ditadura argentina, a resposta das Abuelas de Plaza de Mayo e a busca pela restituição de centenas de identidades Sobre o tema Livros, filmes e documentos para se aprofundar La historia de Abuelas Abuelas de Plaza de Mayo El padre en la apropiación de niños María Elena Domínguez Argentina 1985 (2022) Santiago Mitre 500 - Os Bebês Roubados pela Ditadura Argentina (2013) Alexandre Valenti Las Abuelas y la genética Abuelas de Plaza de Mayo Las viejas Madres de Plaza de Mayo Línea Fundadora A História Oficial (1985) Luis Puenzo 99,9% - La ciencia de las Abuelas (2012) Canal Encuentro Ciencia x la identidad Banco Nacional de Dados Genéticos La Convención sobre los Derechos del Niño en la Argentina Carla Villalta e Soledad Gesteira O Dia em que Eu Não Nasci (2011) Florian Cossen Pañuelos para la Historia (2015) Alejandro Haddad e Nicolás Valentini La biografía de Estela de Carlotto Javier Folco No nos han vencido Luis Zarranz La Casa de los Conejos (2021) Valeria Selinger Secreto a Voces (2018) Misael Bustos Confira a lista de referências utilizadas no projeto

  • Buscarita | Abuelas de Plaza de Mayo

    Quem são as Abuelas de Plaza de Mayo e como elas se organizaram para buscar os netos apropriados durante a ditadura militar Abuelas de Plaza de Mayo As avós argentinas que enfrentaram o regime militar para encontrar os netos apropriados pela ditadura Trajetória As Abuelas de Plaza de Mayo surgiram em outubro de 1977 após, em uma ronda das Madres de Plaza de Mayo, alguém se questionar sobre o paradeiro dos netos (pequenos ou recém-nascidos) que também estavam desaparecidos. Doze mulheres passaram a se organizar para “buscar aos netos sem esquecer dos filhos”, criando assim as Abuelas Argentinas con Nietitos Desaparecidos. Logo depois, adotariam o nome atribuído a elas pela mídia internacional: Abuelas de Plaza de Mayo. leia mais Buscas Delegacias, igrejas, hospitais e quartéis não davam nenhuma informação concreta sobre o paradeiro dos filhos e netos desaparecidos. Então, as Abuelas passaram a buscar por conta própria, assumindo o papel de detetives à procura das crianças que haviam sido sequestradas junto aos pais. Não passou muito tempo até elas começarem a rodar o mundo para chamar a atenção da comunidade internacional e também dos cientistas, a quem recorreram para desenvolver o grande trunfo de suas buscas: o Banco Nacional de Dados Genéticos. leia mais Legado A luta das Abuelas surgiu como um legado deixado por seus filhos desaparecidos. E seu trabalho incansável, por sua vez, é hoje uma herança à sociedade argentina, que vê a elas e a outros organismos de direitos humanos como referências para impedir que nunca mais se repitam as atrocidades do passado. leia mais Futuro Com poucas Abuelas ainda em atividade, a associação passa por um momento de transição geracional. Os netos restituídos e outros parentes de desaparecidos garantem a continuidade da instituição até que se resolva o último caso de neto desaparecido, com o auxílio do Banco Nacional de Datos Genéticos (BNDG) e dos bisnetos, que podem ser um combustível fundamental para o processo de busca de identidade de quem tem suspeitas sobre as próprias origens. leia mais

  • Buscarita | Legado das Abuelas de Plaza de Mayo

    A luta das Abuelas de Plaza de Mayo se solidificou na associação criada em outubro de 1977. Especialistas e personagens centrais das apropriações relatam como as avós argentinas marcaram suas próprias histórias e a de toda a sociedade Legado Como isso é possível? Se mataram os filhos destas senhoras, muitas delas enfrentaram situações horrorosas, há mais de 30 anos as estão despistando, com um Estado que virou as costas, com todos os problemas, com a incompreensão da sociedade, com acusações terríveis… E você vê que estão alegres… O que acontece é que esse objetivo [de buscar] é como uma missão herdada de seus filhos. É como se eles tivessem dito: 'deixo isso com você, procure e resolva'." Remo Carlotto é irmão de Laura Carlotto, sequestrada e assassinada pelos militares em 1977, e filho de Estela de Carlotto, presidente das Abuelas de Plaza de Mayo Uma herança de luta As Abuelas levaram muito a sério a tarefa de buscar seus netos. Divulgaram pelo mundo o que se passava na ditadura argentina, conquistaram boa parte da opinião pública, revolucionaram a genética e criaram um legado de luta com a qual muitas delas nem imaginavam se envolver um dia. Formadas por mães de militantes, algumas das quais até desaprovavam a atuação dos filhos, as Abuelas se viram diante de uma missão movida pelo amor e pela busca por justiça. Deram à luz como avós e resgataram a verdade de, até agora, 130 casos de crianças apropriadas, que puderam recuperar sua identidade. E ajudam a manter viva a memória de um processo atroz e violento ao entoar o coro de que “nunca mais” ele deve se repetir. O legado das Abuelas e de cada avó é observado de maneira muito particular em cada depoimento dado por cientistas, antropólogos, filhos de desaparecidos e netos recuperados, mas todos têm em comum a ideia de que a atuação delas atravessa invariavelmente a luta por memória, verdade e justiça. Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Lorena Battistiol Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Miguel Santucho Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Victor Penchaszadeh Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Carla Villalta Reproduzir vídeo Reproduzir vídeo Claudia Poblete Hlaczik

Projeto de conclusão de curso de Beatriz Gatti para a obtenção do diploma de bacharelado

em jornalismo pela ECA-USP, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Rosana de Lima Soares.

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