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- Buscarita | Abuelas de Plaza de Mayo, direitos humanos e a ciência
Diante do roubo de crianças durante a ditadura militar argentina, mães e avós se uniram em busca dos netos e recorreram à genética para encontrá-los. Mulheres como Buscarita Roa seguem até hoje na luta A ciência aliada aos direitos humanos Como as Abuelas de Plaza de Mayo recorreram à genética para enfrentar o plano de roubo de crianças da ditadura argentina 140 é o número de casos de apropriação de crianças já resolvidos pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Com a ajuda do Banco Nacional de Dados Genéticos, elas ainda seguem em busca de outras centenas de netos tomados de suas famílias biológicas durante a ditadura e criados por pessoas com as quais não tinham nenhum vínculo leia algumas histórias Apro pri a ção é o termo que designa o processo de roubo de crianças sistematicamente realizado pelos militares durante a ditadura argentina. O plano teve a conivência e até participação de outros setores da sociedade, como a medicina, o poder judicial e orfanatos. As Abuelas de Plaza de Mayo estimam que 500 crianças tenham tido as identidades, famílias e infâncias roubadas O plano dos militares leia mais 1987 é o ano em que o Banco Nacional de Dados Genéticos foi fundado para ajudar na recuperação de crianças apropriadas pelos militares. De lá para cá, novas tecnologias e comissões foram desenvolvidas para aprimorar a busca Contexto Genética Passo a passo Lenço branco é o símbolo da luta das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo, que se organizaram como duas associações em abril e outubro de 1977, respectivamente. As avós surgiram após perceberem a necessidade de procurar também seus netos, sem esquecer dos filhos. Tentaram diferentes estratégias de busca, inclusive incorporando o papel de detetives, até que conseguissem a ajuda da ciência conheça as Abuelas Busca rita é o nome da mulher que inspira a criação deste site. Abuela de Plaza de Mayo, Buscarita Roa buscou sua neta durante 21 anos até que finalmente a reencontrou em 2000. Com um nome de batismo premonitório, a Abuela chilena teve uma vida permeada por reencontros: buscou e foi buscada. E segue na luta para identificar as centenas de netos que ainda faltam ser encontrados quem é Buscarita sobre o tema como ajudar
- Buscarita | Ainda desaparecidos
Apesar dos avanços nas buscas das Abuelas de Plaza de Mayo, ainda faltam encontrar cerca de 400 netos que foram apropriados quando crianças durante a ditadura militar argentina Ainda desaparecidos Nélida Navajas, a avó de Miguel, também não chegou a localizar a neta ou neto desaparecido, que hoje em dia deve ter 45 anos. “Cada dia que passa sem frutos da busca é como uma gotinha que cai. Um dia não é nada, dois dias não são nada, nem uma semana. Mas quando começam a se acumular os meses e os anos, isso pesa, é uma carga”, afirma Miguel. “Eu vi a minha avó, que faleceu depois de ter buscado por mais de 35 anos, perder o ânimo.” A busca continua As Abuelas de Plaza de Mayo estimam que, durante a ditadura militar, 500 crianças tenham sido roubadas para serem criadas por outras famílias que não as suas. Destas, 140 já foram localizadas – algumas, na verdade, nem nasceram porque houve gestações de mulheres sequestradas que não chegaram ao fim, mas esses casos também são classificados como resolvidos porque se tem informações sobre seu paradeiro. Restam, portanto, pelo menos 360 casos ainda sem resposta. Um deles diz respeito ao casal Cristina Navajas e Julio Santucho. Ambos militavam pelo Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) e tinham dois filhos, Camilo e Miguel. Mas não sabiam que Cristina estava grávida do terceiro filho quando foi sequestrada em 13 de julho de 1976. Na verdade, ela já suspeitava, mas não deu tempo de confirmar. Depois de um tempo, sua mãe, Nélida Navajas, encontrou uma espécie de diário em que Cristina contava de um atraso na menstruação e dizia que faria um teste de gravidez. Segundo relatos de sobreviventes de centros de detenção pelos quais Cristina passou, ela de fato teve uma gestação e não estava mais grávida quando foi levada ao traslado final – termo que significava a morte –, em 1977. Julio e Nélida, então, como pai e avó, tinham mais uma pessoa para buscar: o filho ou a filha do casal. Quem me conta essa história é Miguel Santucho, segundo filho de Cristina e Julio, que busca o irmão ou irmã e atualmente trabalha na Casa por la Identidad, centro cultural das Abuelas de Plaza de Mayo que funciona em um dos edifícios do antigo centro de detenção ESMA. Foi aos dez anos que Miguel começou a entender a trajetória de luta de sua família e as consequências do roubo institucionalizado de crianças durante a ditadura. E ele garante que as emoções ao longo de quatro décadas de busca variaram muito. Quando criança, eram pensamentos pontuais e mais fantasiosos. “Nos aniversários e Natais, pensávamos o que meu irmão estaria fazendo, como seria… por um tempo eu desejei poder compartilhar as coisas com ele, guardava meus brinquedos na esperança de algum dia poder brincar com ele”, diz Miguel. Já na adolescência, os pensamentos eram mais constantes. Quando começaram a aparecer os primeiros netos, Miguel se agarrava à sensação ambígua de estar feliz por outras famílias ao mesmo tempo em que lamentava a cada restituição que não fosse de seu irmão ou irmã. “Isso me refrescava a dor”, conta. Quando adulto, o trabalho das Abuelas o ajudou a ver o processo com mais tranquilidade e amplitude. “Comecei a entender que a busca não poderia ser individual, porque não seria frutífera. A busca é coletiva, então estamos procurando todos os irmãos simultaneamente”, diz Miguel. Uma sala de partos. É assim que Lorena Battistiol Colayago define a sede das Abuelas de Plaza de Mayo. “Você está há 45 anos em uma sala de partos até que dizem: ‘nasceu’. E, então, se questiona: ‘é menino ou menina? Se parece mais com a mãe ou com o pai?’. Essas perguntas típicas de quando nasce um bebê são as que fazemos quando temos a notícia de um resultado positivo”, descreve ela. Ao longo de 20 anos de trabalho na instituição das Abuelas de Plaza de Mayo, Lorena presenciou muitos reencontros entre famílias e pessoas que recuperaram sua identidade. Mas ainda não recebeu a notícia pela qual espera desde que começou a se envolver com o tema da memória, verdade e justiça. Assim como Miguel, Lorena procura por um irmão ou irmã que deve ter nascido durante o cativeiro de sua mãe entre novembro e dezembro de 1977. Lorena conheceu o trabalho das Abuelas por causa de sua avó María Ángela Lescano. A Negrita, como era conhecida, denunciou às Abuelas o desaparecimento de sua filha, Juana Colayago, em 1978. A jovem de 26 anos estava grávida de seis meses quando foi sequestrada junto a seu companheiro Egidio Battistiol na zona norte de Buenos Aires. Ela passou a se envolver na luta das Abuelas aos 25 anos, depois que voltou à cidade natal da mãe e teve um “clique” de que seria útil na busca dos apropriados. “Eu fui até as Abuelas e disse que estava à disposição para o que elas precisassem”, conta Lorena, que hoje é diretora nacional de espaços de memória da Argentina. Depois, o que era disposição se transformou em trabalho do dia a dia, que durou duas décadas, até que foi convidada a trabalhar na Secretaria de Direitos Humanos, que também funciona na antiga ESMA. Atualmente, Lorena garante estar mais ponderada em relação à busca. Mas já imaginou de diferentes maneiras o momento em que lhe contam que seu irmão ou irmã foi encontrado. “Desde que tive meus filhos, sempre penso que no dia em que me avisarem, vou buscá-los para podermos ir à casa das Abuelas”, compartilha. Ao lado da irmã Flavia, ela permanece firme na tarefa de buscar o terceiro neto que a avó Negrita não conseguiu encontrar antes de falecer, em agosto de 2020. A busca pelo irmão é agora como uma missão deixada por Nélida a Miguel. “Claro que é difícil, mas por isso temos um grupo que se apoia, somos uma grande família nas Abuelas, já conhecemos quais podem ser as dificuldades de cada um, e é isso o que me permite dar esse relato hoje de forma habitual”, diz o filho de Cristina e Julio. “Sinto que ocupo um lugar que me permite transformar uma experiência tão terrível quanto o terrorismo de Estado e os sequestros da minha mãe e meu irmão em uma mensagem para passar adiante. É o que também me ajuda a enfrentar isso”, conclui. Julio Santucho e Cristina Navajas junto ao filho Camilo e Nélida Navajas Egidio Battistiol e Juana Colayago com a primeira filha do casal, Flavia Nélida Navajas buscou seu neto ou neta até o fim da vida, durante a qual se dedicou muito à luta das Abuelas María Ángela Lascano, a Negrita, morreu em agosto de 2020 antes de encontrar seu neto ou sua neta To play, press and hold the enter key. To stop, release the enter key. ARCHIVO ABUELAS ABUELAS/REPRODUÇÃO ABUELAs.ORG.AR ABUELAs.ORG.AR
- Buscarita | Futuro das Abuelas de Plaza de Mayo
Com cada vez menos Abuelas na ativa, a associação enfrenta um momento de transição geracional que, asseguram os netos, está garantida Futuro Reproduzir vídeo Ao longo de 45 anos de luta, as Abuelas de Plaza de Mayo passaram por diferentes situações, sensações e estratégias. O Banco Nacional de Dados Genéticos foi a solução mais eficaz para ir ao encontro dos netos e incentivar que eles também buscassem as Abuelas. Muitas delas tiveram a felicidade de rever os filhos de seus filhos após anos de apropriação, enquanto tantas outras partiram sem alcançar o reencontro. A instituição teve importantes perdas com o passar do tempo, sendo as mais recentes as mortes da histórica integrante Alba Lanzillotto, em junho de 2022, e de Delia Giovanola, uma das 12 Abuelas fundadoras, um mês depois. As centenas de mulheres que outrora compuseram a organização hoje são representadas por quatro delas: Sonia Torres, Ledda Carreiro, Estela de Carlotto e Buscarita Roa, cujas idades entre 85 e 93 anos não as impedem de se manter na ativa. E o que o futuro reserva para as Abuelas de Plaza de Mayo? Segundo Buscarita, a passagem de bastão para os netos já está encaminhada, e a associação será deixada em muito boas mãos. Mas enquanto existir uma Abuela, é ela quem manda . Envolvimento das famílias No comitê diretor das Abuelas de Plaza de Mayo, os netos restituídos já são maioria. Todas as terças-feiras são discutidas novas ideias e campanhas que deem prosseguimento à busca dos cerca de 370 netos desaparecidos. Os já recuperados acabam se envolvendo na luta por valorizarem a descoberta da verdadeira identidade, assim como aconteceu com eles. “Não é coincidência que a maioria dos netos tenha se dedicado a trabalhar em favor da justiça”, diz Victor Penchaszadeh, geneticista que participou do primeiro grupo que criou o índice de abuelidad . “Há alguns que dizem ‘bom, tenho esse compromisso porque tive os pais que tive, que estão desaparecidos’”, acrescenta. No caso do neto restituído Manuel Gonçalves Granada, seu primeiro envolvimento com as Abuelas foi a partir de uma produtora de publicidade que fazia peças audiovisuais e propagandas para televisão sob encomenda delas. “Depois, fui colaborando no que elas me pediam. Como eu podia contar minha história pessoal, e também do ponto de vista institucional, comecei a representar as Abuelas em muitos lugares”, conta ele, que trabalha na Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (CoNaDI), criada a pedido das avós em 1992. Outros colaboradores e organismos Também compõem o comitê diretor da instituição alguns outros familiares de desaparecidos, incluindo filhos que não foram apropriados e procuram por irmãos ou irmãs que nasceram em cativeiro ou foram sequestrados junto aos pais. A associação Abuelas de Plaza de Mayo tem ainda como base todos os colaboradores com quem foi criando laços ao longo dos anos de luta, como advogados, comunicadores, psicólogos e antropólogos que as ajudam no cotidiano e na organização das buscas. Além da transição geracional, o futuro das Abuelas está apoiado nos organismos criados por iniciativa delas. O Banco Nacional de Dados Genéticos vai continuar existindo mesmo depois das avós até que o último neto seja encontrado. A CoNaDI, importante canal para receber pessoas com dúvidas sobre sua identidade, é outro exemplo de ferramentas que ficam para a posteridade. Sociedade vigilante Mesmo com ondas de extrema direita, que tentam apagar ou questionar fatos históricos, a sociedade argentina é mais uma aliada conquistada pelas Abuelas. A conscientização de que a memória histórica e coletiva deve ser respeitada e mantida é parte do legado dessas mulheres – e também ajuda na construção de um futuro sólido. Reações diante de reduções de penas de já condenados por crimes durante a ditadura e pressão contra a impunidade são manifestações comuns e espontaneamente expressivas na Argentina. “Aqui há um grupo muito vigilante em relação ao que acontece com a justiça e os direitos humanos, que não se deixam pisotear”, afirma Victor Penchaszadeh. “Os heróis e heroínas são o povo organizado, são as Abuelas de Plaza de Mayo, são as Madres de Plaza de Mayo, são os cientistas que colaboraram e impulsionaram isso.” “Elas ficarão na memória dos que as conheceram, seguirão estando de outra maneira. Não com sua presença física, porque não são eternas, mas continuarão a partir do trabalho que fizeram.” María Elena Domínguez, psicóloga do Centro de Atenção Psicológica pelo Direito à Identidade, associado às Abuelas
- Buscarita | Em busca dos 99,99%
Desde antes da criação do Banco Nacional de Dados Genéticos, os processos metodológicos do órgão sofreram alterações e aprimoramentos. Entenda cada uma das tecnologias aplicadas na testagem genética feita no BNDG Em busca dos 99,99% Notícia de jornal Raquel procurava nos jornais todos os dias alguma possível informação sobre seu filho e sua nora, que esperavam um bebê quando foram sequestrados pelos militares. Em uma manhã de 1979, uma notícia chamou sua atenção. Mas não trazia exatamente pistas: tratava da história de um homem que negava ser pai de uma criança e foi submetido a um exame de sangue que acabou por confirmar sua paternidade. Raquel, então, deu um pulo da cadeira, como quem tem uma grande ideia, e foi correndo ao encontro das outras avós. Começava ali a jornada que revolucionaria as buscas feitas pelas Abuelas de Plaza de Mayo . A notícia de jornal inspirou as Abuelas a recorrerem à ciência para perguntar se era possível identificar netas e netos a partir de seu sangue. Elas pensaram que talvez os cientistas pudessem aproveitar a tecnologia usada na época nos exames de paternidade para confirmar parentesco com crianças com pais desaparecidos. O envolvimento dos cientistas Em alguns anos, após incontáveis viagens pelo mundo para buscar apoio internacional, as Abuelas procuraram o geneticista argentino Victor Penchaszadeh, na época exilado em Nova York, que as colocou em contato com outros cientistas. Posteriormente, se formaria um grupo de especialistas dedicados a responder ao questionamento daquelas avós que procuravam por seus netos. Depois de reuniões e mais reuniões – incluindo parte do simpósio anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) de 1984 –, as avós receberam a resposta que tanto queriam. Sim, era possível confirmar parentesco com possíveis netos só a partir do sangue delas e de outros familiares que estivessem vivos. “Então, estava criado o índice de abuelidad , que foi capaz de estabelecer as chances de que a compatibilidade entre marcadores genéticos de uma criança e dos supostos avós fosse efetivamente definida por relação de parentesco, e não simplesmente por casualidade ou azar”, explica Victor Penchaszadeh. Estela de Carlotto , presidenta das Abuelas de Plaza de Mayo, e Victor Penchaszadeh , geneticista que ajudou as avós no desenvolvimento do índice de abuelidad I. Antígenos de histocompatibilidade Baseados no que já se tinha a partir dos exames de paternidade, os primeiros estudos do índice de abuelidad se debruçaram sobre tipos sanguíneos e os chamados antígenos de histocompatibilidade (HLA, na sigla em inglês). O DNA ainda não era analisado diretamente, então restava aos cientistas observar o produto de sua expressão. “Grupos sanguíneos e antígenos de histocompatibilidade são produzidos por genes, que são a forma como está organizado o DNA. Ou seja, é uma maneira de estudar os genes a partir de seus produtos”, esclarece Victor Penchaszadeh. Analisar o tipo de sangue ajuda a excluir vínculos, mas não a confirmá-los. Por exemplo, se uma pessoa é do grupo AB e um suposto progenitor é do grupo O, pode-se excluir a possibilidade de parentesco. A chance do vínculo biológico existe somente se o suposto progenitor tiver o tipo A, B ou AB, mas isso também não é suficiente para afirmar que ele seja o pai ou a mãe da pessoa, já que o sistema sanguíneo ABO tem uma variabilidade genética limitada. Ou seja, muita gente tem tipos sanguíneos compatíveis mesmo sem qualquer parentesco. “Então, como você vai distinguir uma pessoa da outra por uma análise que é um pouco diferenciativa?”, questiona o médico argentino. Os antígenos de histocompatibilidade, por sua vez, proporcionam maior precisão nas análises por serem moléculas com milhares de variantes. Importantes para identificar partículas estranhas ao corpo, os HLA são moléculas proteicas fundamentais no transplante de órgãos. São eles que ajudam os médicos a prever as chances de que o organismo do receptor aceite ou rejeite o órgão transplantado. No caso da busca das Abuelas, a variabilidade dos HLA tornava mais difícil a ocorrência de falsos positivos. Isso significa que, diferentemente da análise a partir de tipos sanguíneos, era menos provável que duas pessoas sem parentesco tivessem marcadores de HLA muito semelhantes. Hospital Durand O índice de abuelidad , apesar de funcionar bem na teoria, ainda enfrentava obstáculos para ser executado. O principal desafio era a necessidade de ter amostras de sangue fresco para as análises, o que precisaria ser feito por um laboratório especializado. Foi então que, dos Estados Unidos, o imunogeneticista chileno Pablo Rubinstein informou às Abuelas que o Hospital Durand, em Buenos Aires, dispunha de um laboratório moderno e equipado para dar prosseguimento aos testes genéticos do índice de abuelidad. Sob a chefia de Ana María Di Lonardo, foi no departamento de imunologia do hospital que funcionou a primeira sede do Banco Nacional de Dados Genéticos. A primeira neta recuperada com a ajuda da ciência Paula Eva Logares tinha quase dois anos quando foi sequestrada junto a seus pais Mónica e Claudio, em 1978. Depois de ter sido localizada na casa do então subcomissário da polícia de Buenos Aires, uma denúncia foi documentada em um juizado federal no primeiro dia da volta da democracia, em 10 de dezembro de 1983. A justiça autorizou que se extraísse uma amostra de sangue de Paula para compará-la com as de sua avó e tios maternos e avós paternos. Após resultados positivos da análise, a Corte Suprema de Justiça argentina ordenou em 1984 que Paula voltasse a viver com seus avós. Quando retornou à casa onde vivia, Paula foi até a porta do quarto que havia sido seu, olhou para a cama e perguntou: “Onde está meu ursinho de pelúcia?”. Testar além de uma família As análises seguintes à de Paula Logares também foram feitas de forma individual, ou seja, uma família suspeitava que determinada criança fosse um neto apropriado, fazia uma denúncia e abria-se o processo que poderia levar aos testes genéticos. Mas, com o passar do tempo, as Abuelas e os cientistas foram percebendo que isso gerava perda de informação e de tempo. Faltava um banco onde se pudesse depositar as informações genéticas das então mais de 300 famílias que buscavam netos. Dessa forma, quando um suposto neto desse seu sangue para a análise, seria possível compará-lo não apenas com o de uma avó ou parente, mas de todos os grupos familiares que tivessem deixado suas amostras no banco. Assim criava-se o Banco Nacional de Dados Genéticos. Ou seja, antes mesmo da criação do Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), que ocorreu só em 1987, o índice de abuelidad já estava sendo utilizado para restituir identidades e recuperar netas e netos apropriados. A tecnologia responsável por confirmar essas relações de parentesco foi acompanhando os estudos genéticos mundiais, que naquela época ainda eram incipientes no campo das moléculas de DNA. REDBIOÉTICA/REPRODUÇÃO II. DNA nuclear Quando um espermatozóide fecunda um óvulo, o núcleo do zigoto é constituído 50% pelo DNA do homem e 50% pelo da mulher. Como os genes do homem e da mulher também são constituídos meio a meio pelas informações genéticas de seus respectivos progenitores, o DNA nuclear do novo embrião é formado por ¼ de genes de cada um de seus avós. Isso significa que os milhares de genes que uma pessoa carrega têm em sua composição dados de seus ascendentes. Com os avanços dos estudos sobre o DNA, a grande novidade do Banco no início dos anos 90 foi incorporar a tecnologia capaz de analisar diretamente esses genes. Assim, os testes ganhavam maior precisão, já que era possível escolher os segmentos genéticos com mais variabilidade entre a população. “É muito mais exato, mas não porque os marcadores de histocompatibilidade fossem ruins, e sim porque a evolução da ciência fez com que tivéssemos técnicas e ferramentas muito melhores”, diz Florencia Gagliardi, cientista do BNDG há mais de 30 anos. Essas análises eram e ainda são baseadas em fórmulas estatísticas que consideram a frequência do segmento analisado na população argentina. Isso é importante justamente para calcular a probabilidade de que uma semelhança genética seja por casualidade ou de fato por vínculo biológico. III. DNA mitocondrial Gagliardi conta que o BNDG registra o perfil genético completo de cada uma das amostras de sangue que chegam, o que significa que, além do DNA nuclear, os cientistas fazem análises sobre o DNA mitocondrial e os cromossomos sexuais. Isso aumenta os parâmetros para que um parentesco seja confirmado e se alcance os 99,99% de chance de que uma pessoa seja neta de uma das Abuelas de Plaza de Mayo. O DNA mitocondrial foi especialmente revolucionário para os trabalhos do Banco principalmente por ser um genoma exclusivo da linha materna de um indivíduo. Enquanto um espermatozoide vai transmitir apenas seu núcleo ao embrião – por sua constituição ser praticamente puro núcleo –, o óvulo tem um citoplasma, que contém elementos nutritivos e as organelas. Dentre elas estão as mitocôndrias, responsáveis principalmente pela respiração celular e que contêm um genoma próprio. Embora também sofra divisões e até mutações, o DNA mitocondrial se mantém como um bom marcador para traçar a linhagem materna das espécies, incluindo a humana. Avós, tios, primos e irmãos por parte de mãe herdam esse genoma praticamente idêntico a cada geração, independentemente de serem homens ou mulheres. Mesmo que esteja em condições inadequadas ou em pouca quantidade , o DNA mitocondrial apresenta alta sensibilidade para ser analisado. Por isso, o vínculo biológico pode ser descartado entre dois supostos parentes maternos cujo material genético das mitocôndrias apresente diferenças. Coordenada por Florencia Gagliardi, a área de DNA mitocondrial foi incorporada ao BNDG a partir de 1992 pela cientista norte-americana Mary Claire-King. “Se eu fosse uma pessoa religiosa, estaria convencida de que Deus fez o DNA mitocondrial especificamente para que as Abuelas de Plaza de Mayo o usassem”, disse a geneticista ao jornal Perfil em agosto de 2014. IV. Cromossomos sexuais Se restarem dúvidas na análise mesmo após a comparação entre o DNA nuclear e mitocondrial – ou se não houver amostras de sangue daqueles que seriam os parentes maternos –, os cientistas podem recorrer ainda aos cromossomos sexuais, que podem ser XX ou XY em uma pessoa. Todas as Abuelas de Plaza de Mayo carregam o par XX e só podem ter repassado aos filhos o cromossomo X. Já os maridos delas, por carregarem o par XY, podem ter transmitido adiante tanto o cromossomo X quanto o Y. Portanto, uma neta apropriada que tem dois cromossomos X pode ter recebido um deles tanto de sua avó quanto de seu avô maternos enquanto o outro só pode ter vindo de sua avó paterna. Já um neto apropriado tem o mesmo cromossomo Y de seu pai, do pai de seu pai, do avô paterno de seu pai, e assim sucessivamente. Esse método é utilizado caso seja necessário comparar segmentos específicos diante da disponibilidade das amostras de parentes disponíveis no Banco. “Se possível, o grupo de antropologia forense do Banco exuma a pessoa, pega a amostra e, assim, vamos completando as árvores genealógicas”, afirma. O BNDG conta com uma equipe de antropólogas forenses que analisam o local e as condições em que a pessoa foi enterrada antes de exumá-la e coletar dados. “Aqui, a amostra é analisada por um grupo de especialistas em análises de restos ósseos e material de baixa quantidade de DNA”, acrescenta Gagliardi. Como milhares de desaparecidos foram mortos e enterrados sem o conhecimento de suas famílias ou até sem a própria identificação, localizar os corpos de familiares “faltantes” no banco de dados genéticos é um desafio. É com isso que trabalha a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), ONG dedicada a identificar os desaparecidos durante a ditadura a partir de exumações. No caso em que a EAAF confirma a identificação do corpo de uma mãe ou pai de um dos netos buscados pelo Banco, as informações são compartilhadas com os cientistas do BNDG. “Se identificarem uma mulher e descobrirem que ela morreu quando estava grávida, ou seja, que o bebê nunca chegou a nascer, então o caso é dado como encerrado, porque a busca pelo neto foi resolvida”, diz Gagliardi sobre como o trabalho do EAAF ajuda o Banco. Dos 140 casos considerados resolvidos pelas Abuelas de Plaza de Mayo, 17 foram gestações que não chegaram ao fim, seja porque as mães perderam seus bebês no período em que estiveram sequestradas, seja porque foram mortas antes de darem à luz. A ciência ajuda as Abuelas. Busca a maneira, cria cálculos estatísticos para ajudá-las. Isso é algo inédito no mundo, porque geralmente há avanços científicos e as pessoas dizem 'olha, isso pode nos servir'. Aqui, aconteceu o contrário: elas se aproximaram dos cientistas, e os cientistas fizeram com que a ciência as ajudasse.” Florencia Gagliardi , chefe da área de DNA mitocondrial e geneticista do BNDG por mais de 30 anos Antropologia forense Quanto mais familiares de um grupo estiverem cadastrados no BNDG, mais chances eles têm de encontrar um neto a cada vez que informações de uma nova pessoa forem inseridas. “Se o neto procurado por esse grupo vier ao Banco, é estatisticamente muito provável que o identifiquemos facilmente”, afirma Florencia Gagliardi. Mas há muitos casos em que o grupo familiar está dizimado e poucos parentes deixaram suas amostras no Banco, o que dificulta o potencial matemático de identificação. “Então, tratamos de buscar se existe a possibilidade de agregar novos marcadores ao Banco”, conta a responsável pela área de DNA mitocondrial. Os cientistas criam simulações que informam quais familiares poderiam aumentar esse poder estatístico e tentam colher os respectivos dados genéticos inclusive de pessoas já falecidas. Durante a ditadura, milhares foram enterrados como NN (não nomeados). Na foto, Madre da Plaza de Mayo observa o resultado de exumações em um cemitério de Santa Fé ROBERTO PERA/EAAF/REPRODUÇÃO
- Buscarita | Buscas das Abuelas de Plaza de Mayo
Desde começaram a se organizar, as Abuelas criaram diferentes formas de procurar seus netos. Hoje, com o Banco Nacional de Dados Genéticos, a busca continua até que o último neto seja encontrado Buscar até o último As detetives Depois das infrutuosas visitas a delegacias, quartéis, hospitais e igrejas, tanto as Madres quanto as Abuelas começaram a buscar seus filhos e netos por outros meios. Muitas recorriam a conhecidos que tinham contato com alguém que poderia ajudá-las fornecendo informações ou até intermediando encontros com autoridades. Mas elas não podiam contar com a boa vontade daqueles que governavam o país naquele momento. Então, deram início a suas próprias investigações. As Abuelas incorporaram um verdadeiro papel de detetives. Além de interrogar vizinhos e potenciais testemunhas dos sequestros de seus filhos e netos, iam a escolas no horário de saída e se escondiam atrás de árvores ou carros enquanto procuravam por alguma criança que se parecesse com algum dos netos. “Outras avós fingiam ser vendedoras de produtos infantis. Tocavam a campainha e diziam: ‘Há um bebê nesta casa? Porque isso se usa assim…’. Dessa forma conseguiam dados e, em alguns casos, chegavam a ver a criança”, conta Nélida Navajas, avó que foi durante muitos anos secretária da instituição, no livro “La Historia de Abuelas”. “Estela [de Carlotto] propôs que formássemos equipes, e nós concordamos. Entrei em investigação. Deram-me uma câmera fotográfica e eu saía em meu Fiatzinho [Fiat 600]. No lugar indicado, levantava o capô do automóvel, como se tivesse algum defeito, e tirava fotos das crianças. Também conversava com as professoras e com as diretoras. Algumas me recebiam bem, outras, não. Às vezes me punham para fora da escola ou me perguntavam o que eu fazia com o carro em frente à porta, e eu lhes dizia que estava esperando minha neta.” Elena Opezzo ao livro “La Historia de Abuelas” CREATIVE COMMONS As primeiras denúncias de possíveis casos de apropriação vieram em papeizinhos que eram entregues a elas nas rondas da Praça de Maio. Um endereço e a informação de que um casal havia aparecido de repente com um bebê eram suficientes para que lá fossem as Abuelas tentar descobrir mais alguma coisa. Elas foram formando dossiês de investigação com relatos de testemunhas, depoimentos de familiares, denúncias, fotos e todo tipo de documento que pudesse ajudar na busca. Esses arquivos eram compartilhados com autoridades e personagens públicos com o intuito de ampliar cada vez mais o alcance sobre o que estava acontecendo na Argentina. As primeiras restituições A localização das irmãs Tatiana Ruarte Britos e Laura Malena Jotar Britos, em março de 1980, trouxe o fôlego de que as Abuelas precisavam. Depois de uma denúncia, as Abuelas foram até o juizado de menores onde corria um processo de adoção para as duas meninas, de seis e três anos, respectivamente. Sob a guarda do casal Sfiligoy, as crianças foram reconhecidas por suas avós e, posteriormente, Tatiana também as reconheceu – três anos depois do sequestro que as separou da mãe. Os pais adotivos nunca negaram que Tatiana e Laura (ou Mara, como havia sido nomeada por eles) conhecessem sua história, e as crianças mantiveram seus vínculos biológicos. “A princípio, queria que Tati viesse morar comigo. Mas entendemos que Inés e Carlos haviam formado uma família e elas estavam bem”, contou certa vez a avó paterna de Tatiana, Amalia Pérez, que era sempre recebida de braços abertos na casa dos Sfiligoy. Casos como o de Tatiana e Laura, porém, foram raros. Tatiana Ruarte Britos Sfiligoy e Laura Malena Jotar Britos Sfiligoy, restituídas em março de 1980 ARCHIVO ABUELAS O mundo precisa saber Ainda em meio ao regime, as Abuelas tentavam disseminar sua luta com a ajuda de exilados e figuras de projeção internacional. Um dos nomes que abriu muitas portas foi Adolfo Pérez Esquivel. O pacifista e ativista de direitos humanos ganhou o Nobel da Paz em 1980 e recebeu uma missão especial para a viagem em que receberia o prêmio: “Chicha Mariani [uma das fundadoras das Abuelas] me disse: ‘Olha, tenho que falar com você. Se você vai se encontrar com o Papa, com o João Paulo II, você pode levar os relatórios sobre as crianças’. Eu disse a ela: ‘Bem, então me prepare’”, escreveu o professor no livro “La Convención sobre los Derechos del Niño en la Argentina”. O slogan “Aparición con vida”, adotado pelas Madres de Plaza de Mayo em dezembro de 1980, que definia a exigência feita pelas mães dos desaparecidos, foi incorporado também pelas Abuelas e outros organismos defensores de direitos humanos. O caso das crianças apropriadas chamou a atenção inclusive da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Concomitantemente às buscas, que nunca cessaram, as avós procuraram apoio na comunidade científica internacional para pedir por uma solução genética que as ajudasse. A saída foi adaptar a tecnologia dos testes de paternidade para criar o chamado índice de abuelidad , por meio do qual passaria a ser possível confirmar parentesco entre crianças e outros familiares além dos pais – incluindo pessoas de diferentes gerações, como os avós. A partir dali, era uma questão de tempo, pressão social e vontade política até que a revolução científica incentivada pelas Abuelas saísse do papel. Após o fim da ditadura, em 1983, todos os ingredientes estavam postos para a criação do Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), que aconteceu menos de quatro anos depois, em 1987. Dos 500 netos apropriados que calculam as Abuelas, 140 casos já foram resolvidos – e a grande maioria a partir das técnicas do Banco. Depois de criado, o órgão passou a receber amostras de sangue dos familiares que procuravam por algum dos filhos dos desaparecidos e até de pessoas que ninguém buscava, mas depois se descobriram netas das Abuelas . BEATRIZ GATTI 'Aparición con vida' foi um dos slogans defendidos pelas Madres e Abuelas de Plaza de Mayo no fim de 1980 Buscar e ser buscado Gerar a dúvida. Essa foi a estratégia que as Abuelas adotaram já nos primeiros anos do BNDG e mantêm até hoje. Havia uma mudança de direção importante no processo de buscas: as crianças apropriadas estavam crescendo e virando adolescentes ou até adultos. Embora as investigações nunca tenham parado, o papel de detetive já não fazia mais sentido e era hora de pensar em maneiras que incentivassem os supostos netos a refletir sobre sua identidade e a buscar sua verdadeira origem. Você sabe quem você é? BEATRIZ GATTI
- Buscarita | As 'apropriações'
O plano sistemático de roubo de crianças durante a ditadura militar argentina consistiu em apropriar os filhos pequenos ou recém-nascidos dos homens e mulheres considerados subversivos pelas forças armadas As 'apropriações' O que fizeram com os filhos dos desaparecidos? É sua primeira vez aqui. Por isso, tudo é novo: os cheiros, os sons, as luzes. Em poucos segundos, saiu de seu maior conforto para experimentar todos os sentidos possíveis. Sem caminho de volta, veio ao mundo. E agora? Apropriação como parte do plano Os bebês nascidos em cativeiro durante a ditadura militar na Argentina (1976-1983) foram privados de sua liberdade desde o parto. Foram retirados dos braços das mães, às quais se dizia que logo seriam devolvidos a elas ou levados aos cuidados de suas famílias. Isso aconteceu raras vezes. “A norma era outra. Após parirem sob condições subumanas, as mães eram transferidas [para a execução] e as crianças eram apropriadas ou inseridas em um circuito, que costumo denominar jurídico-burocrático, composto por creches, tribunais e equipes particulares de adoção”, diz Carla Villalta, coordenadora da equipe de Antropologia Política e Jurídica da Universidade de Buenos Aires (UBA). O que significa ser apropriado? Apropiación é um termo em espanhol cunhado pela equipe de advogados das Abuelas de Plaza de Mayo para definir o processo de roubo de filhos de desaparecidos que foram retirados de suas famílias e entregues a outras pessoas. Neste site, os neologismos em português “apropriação”, “apropriado” e “apropriar” referem-se aos conceitos de apropiación , apropiado e apropiar . Conceitualmente, a apropriação restringe-se ao período histórico da ditadura na Argentina, ou seja, entre 1976 e 1983. “Basicamente está ligada à ideia de perpetuar o desaparecimento dos pais, limpar todos os rastros, substituir a identidade e apagar a origem”, explica a pesquisadora da UBA. Nos centros clandestinos, mantinha-se propositalmente as gestações como parte do Processo de Reorganização Nacional, pelo qual os militares pretendiam exterminar os subversivos. Segundo o discurso que dominava entre as forças armadas, uma educação correta poderia impedir que os filhos dos desaparecidos também propagassem a subversão. Seria como cortar o mal pela raiz poupando a vida das crianças, embora muitas delas tenham sido assassinadas em ataques militares junto a seus pais. Além de roubar os nascidos em cativeiro, as apropriações incluíam como alvo as crianças pequenas que ficaram sozinhas após a execução dos pais ou até as que também foram levadas aos centros de detenção. “Os apropriadores na Argentina pegavam os filhos de quem eles mesmos haviam assassinado, com a ideia de oferecer uma criação que os convertesse em ‘argentinos de fato e de direitos’”, afirma Armando Kletnicki, psicanalista e chefe de trabalho da Cátedra de Psicologia, Ética e Direitos Humanos da UBA. CHRIS DEVERS/FLICKR Infância sob amarras Acomodo-me em uma poltrona e procuro por Claudia. Ela está no balcão do café já buscando seu pedido e, em poucos minutos, me vê e vem a meu encontro. Ela carrega uma bandeja com um pedaço de bolo e um suco de laranja, além da sutil gentileza de trazer consigo dois copos. Me oferece o suco, eu agradeço, mas digo que não quero. Estou um pouco nervosa, porque ela é a primeira apropriada com quem eu falo. E é um tema delicado. Sugiro que comecemos e ajusto a câmera no tripé e o microfone em cima da mesa. Claudia para de comer o bolo e junta suas mãos sobre os joelhos. Ajeita a postura, e também parece um pouco apreensiva, mas mais pela presença da câmera do que pela minha. Peço a ela que se apresente e faço as primeiras perguntas. Estamos nos conhecendo ali, aos poucos, apesar de estarmos falando muito mais dela do que de mim. E eu já conheço boa parte de sua história. Mas agora é diferente; é Claudia quem me conta as coisas que viveu. É ela quem conta que foi apropriada por um tenente-coronel e sua esposa quando tinha oito meses de idade, em novembro de 1978, embora não se lembre. Viveu toda sua infância sob os cuidados de um membro da inteligência do Exército e durante a ditadura que havia sequestrado e desaparecido com seus pais, Pepe e Gertrudis. É Claudia quem conta que, aos oito meses, foi levada ao centro clandestino Olimpo, a oeste da cidade de Buenos Aires, onde um médico cardiologista falsificou sua certidão de nascimento e, junto a um policial, a entregou a seus apropriadores. Quando pergunto sobre sua criação, ela a caracteriza como ‘estranha’. O tenente-coronel e sua esposa criaram Claudia como filha única em um domo de superproteção – e mentiras. Balançando a cabeça como quem lamenta uma lembrança, ela conta que ouvia em casa que os militares travavam uma guerra contra os subversivos, que queriam impor o comunismo na Argentina. O discurso do militar a quem ela chamava de pai era de que eles haviam salvado o país e agora os subversivos e as “loucas da Praça de Maio” tentavam se vingar. Sempre com uma expressão tranquila – e uma voz que às vezes se eleva somente para se sobrepor aos barulhos do café em que estamos –, Claudia fala sobre seus medos de criança. Perder sua suposta família e acabar sozinha, já que seus apropriadores tinham em torno de 50 anos quando a levaram consigo ainda bebê. Para ela, o que sustentou sua apropriação por tanto tempo – e certamente continua a manter tantas outras por aí – foi a criação de um vínculo de dependência emocional quase inabalável junto aos apropriadores: o medo de perdê-los, decepcioná-los e deixá-los. E, por mais que eu já tivesse lido sobre isso, ouvir diretamente de quem viveu esse fardo na pele é sentir mais de perto os danos que o plano sistemático de apropriação causou em uma geração de argentinos. Eu tinha cinco meses quando uma operação realizada na casa em que vivíamos matou minha mãe e uma família com duas crianças de três e cinco anos. Minha mãe havia me posto em um armário no quarto e foi isso que me protegeu um pouco dos gases e me salvou das balas. Depois de quatro meses no hospital com custódia policial, o juiz de menores, que sabia de tudo desde o início, me entrega a uma família que ele conhecia. Durante todo esse tempo nada foi feito para buscar minha família biológica. Manuel Gonçalves Granada Neto de número 57 restituído pelas Abuelas de Plaza de Mayo A adoção fraudulenta usada como método Não só médicos e militares participaram da execução do plano de roubo de meninos e meninas na Argentina. O processo teve o consentimento de juízes e escrivães de cartórios civis que davam prosseguimento a processos ilegais de adoção, falsificavam registros de nascimento ou simplesmente faziam vista grossa à inconsistência de dados e documentos. Ou seja, em muitos casos era possível suspeitar da origem daquela criança em processo de adoção, mas havia conivência jurídica com o plano dos militares. Segundo as Abuelas de Plaza de Mayo, que receberam cerca de 500 denúncias de casos de apropriação, houve quatro formas de roubo. Muitas crianças foram apropriadas pelos envolvidos ou responsáveis pelo desaparecimento ou morte dos próprios pais ou por cúmplices que atuaram no plano de apropriação. Pessoas que conheciam a origem da criança, mesmo sem estar envolvidas na execução prática dos crimes, também registraram meninas e meninos como filhos próprios a partir da falsificação de nomes e datas de nascimento. E existiram ainda muitos casos de adoção, nos quais nem sempre foi possível confirmar o quanto os pais adotivos sabiam ou tinham condições de suspeitar da origem das crianças. Há os casos de adoções de boa fé, em que a família não escondeu o que sabia dos filhos adotivos e colaborou com as investigações das Abuelas, que procuravam pelos seus netos. Mas mesmo assim o processo é considerado fraudulento; afinal, ninguém encaminhou aquelas crianças para adoção. Elas foram forçadas a enfrentar uma condição que não as contemplava. A grande diferença é que essas crianças foram restituídas às suas verdadeiras identidades tão logo se soube quem eram, como é o caso de Tatiana e Laura Sfiligoy , as primeiras netas restituídas pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Abuelas de Plaza de Mayo e alguns dos netos já recuperados reunidos na sede da associação, incluindo Laura (à esq. do centro da foto, em frente à mesa) e Tatiana Sfiligoy (atrás da menina de branco, na lateral da mesa) ARCHIVO ABUELAS Mecanismos de defesa Para a psicanalista María Elena Domínguez, que atua no Centro de Atenção Psicológica pelo Direito à Identidade, a apropriação está relacionada a forçar papéis e funções parentais que não existem. “O que o apropriador tenta é criar um laço em que considera a criança um objeto, um objeto de seu discurso”, diz ela, que também participa da Cátedra de Psicologia, Ética e Direitos Humanos da UBA. Os efeitos de uma infância apropriada variam de caso a caso. Um deles pode ser a dificuldade de verbalizar e expressar sensações e angústias de um momento traumático. Uma criança pequena que presenciou a execução ou sequestro dos pais e não domina a comunicação verbal vai registrar aquele episódio de alguma forma. “Considerando que as memórias se constroem a partir de uma lógica entre pensamentos e palavras, algo que aconteceu muito precocemente na vida de quem ainda não domina a linguagem fica como uma marca, mas como se fosse uma marca direta no corpo mesmo”, explica o chefe da Cátedra, Armando Kletnicki. Para lidar com episódios traumáticos, dois mecanismos de defesa muito comuns observados na psicologia são o esquecimento e a negação. Domínguez cita o caso de Paula Eva Logares, que foi a primeira neta recuperada com a ajuda da ciência. Os apropriadores da criança a registraram como filha própria e recém-nascida, embora ela já tivesse quase dois anos de idade. “Para viver com os apropriadores, essa menina teve que esquecer aqueles 23 meses vividos até ali. Então, há algo nesse esquecimento que vai contra a imposição de uma outra realidade”, afirma a psicanalista. Já a negação pode aparecer de maneira sintomática no futuro, apesar de também ser um método de se proteger diante de traumas. Se um adolescente ou jovem criado e formado por um grupo familiar começa a ser confrontado por provas irrefutáveis de que aquela não é sua família biológica e, pior ainda, que aqueles que o criaram fizeram parte do grupo de repressores que podem ser os assassinos de seus pais biológicos, a primeira opção não é aceitar essas informações. “Se eu tenho duas representações que colidem, eu preciso negar uma para sobreviver. Então, rejeito o que está sendo dito”, afirma Kletnicki. O tempo não se devolve Até que se descubra a verdade a respeito da própria origem, o crime sobre os apropriados continua sendo cometido. A cada dia que se escolhe continuar mentindo para uma criança sobre sua história, os efeitos de uma infância apropriada se expandem, afirmam os psicólogos. “Eles escolheram sustentar isso durante 21 anos da minha vida, dizendo que me amavam, mas, na verdade, protegendo a si mesmos de uma decisão que haviam tomado conscientemente aos 50 anos de idade”. Essa é Claudia Victoria Poblete Hlaczik, neta de número 64 restituída pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Além dela, as Abuelas contam até agora 139 casos resolvidos. Isto é, 140 histórias de gestações e crianças que haviam sido escondidas da sociedade e das famílias dos desaparecidos e foram descobertas (a maioria foi de fato encontrada, mas há casos considerados resolvidos em que se confirmou que a gestação não chegou ao término). Restituir é devolver algo ao lugar de onde se tirou e reparar os danos que isso pode ter causado, define Armando Kletnicki. Se alguém rouba um carro e bate com ele, por exemplo, a restituição seria devolver o carro após feitos os consertos de uma batida. Mas como isso seria feito com uma pessoa que teve mais do que bens materiais roubados, teve sua própria história de vida apropriada? “Com as pessoas, não há maneira de voltar atrás como se fossem um objeto que você deixa em um mecânico, arrumam e te devolvem”, diz o psicólogo. “O tempo não se devolve, nem os processos que o tempo formou. Não é possível haver crescido com determinadas experiências e apagar isso e começar de novo do lugar onde deveria ter estado.” Neste site, os termos em português “restituição”, “restituído” e “restituir” referem-se ao conceito de restituición de identidad usado pelas Abuelas de Plaza de Mayo. O psicanalista também se questiona sobre o número de netos ainda não encontrados, que são cerca de 360. O que isso pode dizer em relação às apropriações? Que elas tiveram êxito? Como se em alguns casos, mesmo que sob um contexto de mentiras, crianças tenham sido capazes de se construir como sujeito, e hoje pessoas adultas tenham convicção de que não querem explorar seu passado. Ou seria justamente ao contrário? Como se os adultos de hoje não tenham conseguido se desenvolver suficientemente para chegar a perguntar-se quem são. “Isso seria fruto de uma lógica de criação que os condenou a ser objetos do outro. Mas não temos essa resposta”, afirma Kletnicki. Paula Eva Logares junto à sua avó Elsa Pavón ABUELAS DE PLAZA DE MAYO/Fotografías de años en lucha
- Buscarita | Contexto de criação do BNDG
Criado apenas quatro anos após o fim da ditadura, o Banco Nacional de Dados Genéticos ajudou a agilizar a identificação de possíveis netos apropriados durante a ditadura. Especialistas e personagens explicam os fatores que contribuíram para sua rápida implementação Contexto de criação O Banco Nacional de Dados Genéticos foi criado graças à luta das Abuelas de Plaza de Mayo, que surgiram a partir das mães que procuravam seus filhos desaparecidos. Um dia, uma delas se questionou sobre o paradeiro também do neto pequeno e perguntou quem mais buscava crianças sequestradas ou bebês recém-nascidos. Doze mulheres se apresentaram e criaram, então, as Abuelas. Diante de tantas respostas negativas das autoridades sobre o paradeiro de seus filhos e netos, essas mulheres resolveram recorrer à ciência para desenvolver outra maneira de buscá-los. O INÍCIO DE TUDO Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado A CIÊNCIA RESPONDE 'SIM' Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado As viagens das Abuelas renderam frutos nos Estados Unidos, onde se encontraram com o geneticista argentino Victor Penchaszadeh, que estava exilado em Nova York. O cientista as colocou em contato com a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), que ajudou a formar um grupo que se comprometeu a buscar respostas à demanda das avós. Eles, então, conseguiram desenvolver o índice de abuelidad , por meio do qual seria possível confirmar vínculos biológicos entre crianças e avós sem a presença da geração intermediária. A partir daí, a criação do Banco era questão de tempo. O Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG) foi criado em 13 de maio de 1987 pela lei nº 23.511. Exatamente três anos e sete meses depois do fim da ditadura, o Congresso argentino determinava a regulamentação do órgão que viria a se tornar o grande trunfo da busca pelos netos das Abuelas de Plaza de Mayo. Personagens históricos explicam como a perda de poder dos militares, a pressão social, a transição democrática, a ciência e, é claro, as Abuelas garantiram a criação do BNDG imediatamente retomada a democracia. UM MILAGRE EXPLICADO Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado OS RESULTADOS Reproduzir vídeo Facebook Twitter Pinterest Tumblr Copiar link Link copiado O BNDG significa para muitos a possibilidade de encontrar-se não apenas com sua família biológica, de que foram separados quando criança, mas principalmente com a sua verdade, identidade e origem. O órgão teve sua legitimidade por vezes questionada, mas segue como referência no processo de memória, verdade e justiça da Argentina. Quatro netos restituídos pelas Abuelas comentam impressões, processos e significados que a análise genética realizada pelo Banco trouxe às suas vidas. Créditos dos vídeos
- Buscarita | Quem é Buscarita
Inspiração para o título do site, Buscarita Roa é a vice-presidente em atividade das Abuelas de Plaza de Mayo. Com um nome premonitório, a avó chilena que se mudou para a Argentina tem uma vida repleta de buscas A mulher por trás do nome do site A chilena Buscarita Imperi Roa vive na Argentina há 50 anos. Mudou-se para o país vizinho para viver junto ao filho Pepe, que havia ido para lá em 1971 com o objetivo de fazer um tratamento ortopédico. Durante a adolescência, Pepe sofreu um acidente que o fez perder as duas pernas. Ao chegar no hospital para ver o filho, a primeira coisa que Buscarita ouviu foi: “Mãe, não fique triste nem chore. Eu vou ser a primeira pessoa a correr com pernas ortopédicas”. E lá foi ele, aos 16 anos, em busca do feito na Argentina. Em 28 de novembro de 1978, durante a ditadura militar, Pepe e sua companheira Trudy foram sequestrados em Buenos Aires. A neta de Buscarita, que tinha apenas oito meses, foi junto dos pais até um campo de detenção. Lá, permaneceu por três dias até que um militar a levasse para casa para registrá-la como filha própria. E assim Claudia Poblete Hlaczik foi criada. Na época, Buscarita trabalhava como supervisora da limpeza em um prédio do governo que ficava muito próximo à Praça de Maio, no centro de Buenos Aires. Sem respostas sobre o paradeiro do filho, nora e neta nas muitas delegacias pelas quais passou, Buscarita resolveu um dia se aproximar daquelas mulheres que caminhavam ao redor da praça e, a partir daí, se uniu à luta das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo. Buscarita seguiu em sua busca incessante por anos até que Claudia fosse encontrada e identificada como filha de José Poblete Roa (o Pepe) e Gertrudis Hlaczik (a Trudy), em fevereiro de 2000. A reaproximação entre avó e neta foi lenta, mas a Abuela respeitou o tempo da jovem que havia passado mais de duas décadas acreditando que sua identidade era outra. Um dia, ambas conversavam sentadas e Claudia se levantou, pegou na mão de Buscarita e a fez levantar para que dessem o primeiro abraço. E a neta disse: “Obrigada, vó, por ter me buscado e me dado a chance de conhecer minha verdadeira identidade”. Luta, família e trabalho Ao longo dos anos em que buscava por Pepe, Trudy e Claudia, a Abuela chilena tinha que conciliar o trabalho com os cuidados dos outros filhos e da casa, que era muito distante do centro de Buenos Aires. “Para as Abuelas mais pobres era muito mais difícil, porque tínhamos que levantar às 5 da manhã, pegar um trem, vir trabalhar, escapar do trabalho, fazer a ronda da praça e voltar”, conta Buscarita. Depois, ela chegava tarde em casa e deixava prontas as refeições para os filhos comerem no dia seguinte. Da busca coletiva feita pelas Abuelas, Buscarita ganhou muitas companheiras para a vida. “Tínhamos reunião toda semana, depois começamos a tomar um cafezinho, um chá, a rir, a chorar, todas juntas. E assim fomos virando amigas, amigas, amigas”, diz ela. Mesmo depois de encontrar Claudia, Buscarita não deixou de buscar os outros netos apropriados. “Não importava que não fôssemos a avó, encontrar um neto era como reencontrar o nosso. Era uma festa, o recebíamos com todo o amor do mundo”, conta. Hoje em dia, ela é a única avó que continua indo quase todos os dias à casa das Abuelas, em Buenos Aires. A presidenta Estela de Carlotto segue trabalhando de sua casa, em La Plata. Respectivamente de Córdoba e Mar del Plata, Sonia Torres e Ledda Barrero são as outras avós que completam o quarteto que permanece em atividade. Ambas ainda não encontraram os netos ou netas que devem ter nascido durante o cativeiro de suas filhas, mas seguem firmes na luta. Uma vida de buscas Os pais de Buscarita lhe deram um nome que foi premonitório em relação à sua vida. Uma década antes de localizar Claudia, a chilena teve outro reencontro potente. Mas nesse caso era ela quem estava sendo buscada. Um dia, uma colega de escola de Fernando, um de seus filhos, ouviu em uma rádio do Chile que dois irmãos procuravam por uma mulher chamada Buscarita e disse a ele que devia ser sua mãe. Ele respondeu que não podia ser, porque sua mãe não tinha irmãos. A colega, convicta de que não devia haver muitas pessoas chamadas Buscarita pelo mundo, insistiu na informação e convenceu Fernando a entrar em contato com a rádio. Sim, era ela. Aos 50 anos, Buscarita descobriu ter dois irmãos e, enfim, os conheceu. Eles foram separados após a morte dos pais de Buscarita em um acidente de carro. Ela tinha três anos e foi viver com sua avó paterna, enquanto seus irmãos mais velhos – que eram filhos da mãe de Buscarita, mas de outro pai – passaram a morar com a família paterna. A rádio passou o telefone do tio de Fernando, que ligou para ele e ouviu, do outro lado, alguém dizer aos gritos: “Encontrei minha irmãzinha, encontrei minha irmãzinha!”. PAULA SANSONE E VALERIA DRANOVSKY/ANCCOM-UBA Buscarita Roa junto à neta e à bisneta, Claudia Poblete e Guadalupe Álvarez Como é ter um nome que tem tudo a ver com as buscas? Buscarita Roa Sim! Todos me dizem o mesmo. Acontece algo muito estranho comigo, porque Buscarita… o ‘bus’ vem de ‘buscar’. Meus irmãos me buscaram, eu busquei meu filho e minha neta. Então, bem, meu nome faz todo sentido. Buscarita, muito obrigada! Buscarita Roa Não, por favor, obrigada a você pelo que está fazendo. Meu encontro com Buscarita: ternura de avó Demoro para encontrar o número certo, mas não o suficiente para me atrasar. Quando me localizo, toco a campainha e entro. Não à toa chamam a sede da associação de casa das Abuelas. A sensação de casa vem tanto da madeira que resistiu com o passar dos anos quanto da presença calorosa das muitas pessoas que entram e saem pela porta. É terça-feira, dia da reunião semanal do comitê diretor, então aproveito para ficar atenta à chegada dos netos com os quais ainda não consegui marcar entrevistas. Ouço parte da conversa de telefone entre a pessoa que me recebeu e o que deve ser a Buscarita do outro lado da linha. Sou informada de que ela acabou de entrar no táxi, mas que não deve demorar muito pois mora perto dali. Sim, vou conversar com uma Abuela de Plaza de Mayo e não me aguento de animação por dentro, mas tento não deixar transparecer. Quando ela chega, já estou com a câmera posicionada depois de mexer um pouco nas poltronas da sala para ajustar o enquadramento. Depois de me cumprimentar, ela se senta em outra poltrona, então pergunto se ela se incomoda em mudar para a outra, no canto da sala. Ela aceita com simpatia e começamos a entrevista. Fico preocupada em tomar muito de seu tempo e cansá-la (como fiz com o Victor após quase três horas de entrevistas que tiveram de ser divididas entre dois dias). Mas a cada resposta que ela conclui, solta um sorriso que indica estar tudo bem. Depois da última pergunta, agradeço pela entrevista e me levanto para cumprimentá-la com as mãos, o que logo se torna um abraço afetuoso. Com uma ternura bem típica de avós. Saímos da sala, e eu já estou tomada por uma sensação de que meu trabalho está dando certo. Na verdade, ali, depois daquela entrevista, a sensação é de que já deu certo. A conversa de 30 minutos com Buscarita me serve de combustível para seguir firme o ritmo de apuração nos quatro dias que me restam em Buenos Aires. Dos quatro netos com quem combinei de falar, só consegui encontrar-me com uma – que é justamente Claudia, a neta de Buscarita. Mas aproveito a visita à casa das Abuelas para esperar a chegada dos outros membros do comitê diretor que vêm para a reunião. Ainda é cedo, porém; a reunião só começa em duas horas. Espero em uma cadeira ao lado da porta e me atento à dinâmica daquele lugar. A campainha toca, alguém atende e abre a porta de fora e, depois de alguns segundos, também a de dentro. As pessoas que já estão na casa se dividem entre as várias salas e corredores que existem nela, mas ressurgem na sala principal toda vez que alguém chega. Quem entra é recebido com sorrisos e abraços, como se fosse sempre aniversário de alguém. Eles parecem felizes por estarem ali. Em uma dessas vezes, Buscarita reaparece e me vê novamente. Demonstra surpresa por eu ainda estar ali e preocupação por ser hora do almoço e eu ainda não ter comido. Vem até mim, toca no meu ombro e me oferece uma bolacha, um chazinho ou um mate. Sinto como se eu estivesse com a minha avó. Paro para pensar como é possível que aquela senhora, que tem uma faixa de cabelos brancos e um lenço colorido enrolado no pescoço, nunca tenha perdido a ternura apesar das dificuldades da vida, da perda do filho para a ditadura e da apropriação da neta. E lembro-me do que ela disse que a motiva a seguir trabalhando nas Abuelas: o amor. O amor aos filhos, o amor aos netos e o amor à vida, “porque enquanto se estiver vivo, é possível seguir fazendo coisas”.
- Buscarita | Maternidades clandestinas
Em alguns dos mais de 760 centros de detenção clandestinos que funcionaram durante a ditadura militar argentina existiram verdadeiras maternidades clandestinas, onde mulheres grávidas sequestradas davam à luz Maternidades clandestinas Como foi possível nascerem crianças nesse lugar? Quem hoje passa pelo número 8151 da Avenida del Libertador, em Buenos Aires, sente que ali há algo a ser notado. Uma atmosfera escondida por trás de muitos prédios que atualmente abrigam organismos e instituições ligadas aos direitos humanos. Um clima carregado de memória, verdade e justiça para os que conhecem ao menos um pouco da história do lugar onde funcionou a antiga Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Foi lá que, entre 1976 e 1983, militares mantiveram presos, torturaram e mataram cerca de 5 mil homens e mulheres. Onde planos de sequestro, extermínio e execução eram traçados e de onde saíam grande parte dos vuelos de la muerte – método de execução adotado pelo regime militar argentino que consistia em jogar, de um avião, homens e mulheres atados a pedras em direção ao mar. Onde bebês nascidos em cativeiro eram separados de suas mães logo após o parto, que encurtava a sobrevida das mulheres que eram parcialmente poupadas para darem à luz. Ana María Martí foi sequestrada em 18 de março de 1977 e passou quase dois anos presa na ESMA, onde esteve submetida a condições subumanas, torturas e trabalho forçado. Recuperou sua liberdade em 15 de dezembro de 1978 e foi uma das testemunhas de julgamentos de crimes cometidos durante a ditadura. Em 2011, durante uma audiência que julgava o Plano Sistemático de Apropriação de Menores, Martí relatou que as grávidas eram mantidas vivas até o momento do parto. “Dentro da área das grávidas começaram a tratá-las muito melhor do que quando estavam na capucha. Comiam melhor, estavam mais limpas, podiam tomar banho.” De acordo com Maria Alicia Milia, que também esteve presa por quase dois anos na ESMA, na capucha, a principal diferença era que as gestantes não usavam capuzes, mas óculos que as permitiam ao menos respirar. Posteriormente receberam colchonetes e camas de metal, mas, assim como as outras detidas, comiam um sanduíche com mate pela manhã, no almoço e no jantar. Apesar dos relatos de melhores tratamentos na área das grávidas, não existia garantia alguma do bem-estar de qualquer um dos presos. Afinal, estavam privados de sua liberdade e sofriam diferentes tipos de violência – quando mantidos vivos. As mulheres que carregavam seus filhos foram sistematicamente submetidas a abusos, inclusive durante e após os partos, quando seus bebês eram imediatamente retirados de seus cuidados. As maternidades compunham um plano audacioso: o roubo sistemático dos filhos de desaparecidos. BEATRIZ GATTI BEATRIZ GATTI Esses bebês nunca mais veriam suas mães, mas a maioria deles também seria privada de uma vida inteira com suas famílias, irmãos, avós, tios e primos. Permanentemente separados. É essa a história da ESMA, um dos maiores e piores centros de detenção, tortura e extermínio registrados durante a ditadura militar argentina. Mas não o único. Também entre 1976 e 1983, espalhados por todo o país funcionaram outros 761 centros clandestinos dedicados à tortura e execução de militantes, estudantes, jornalistas, professores, religiosos e quaisquer outros enquadrados como “subversivos”. Equipes especializadas atuavam em locais nada preparados para operar uma parte importante do maquinário do regime: as maternidades clandestinas. Elas funcionavam em centros de detenção estratégicos para onde eram levadas cerca de 10% de todas as mulheres sequestradas, que estavam grávidas no momento da captura, de acordo com o relatório final da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep). Segundo depoimentos de alguns sobreviventes que testemunharam as condições da maternidade na ESMA, as gestantes recebiam melhor tratamento quando saíam da capucha – local em que os prisioneiros ficavam encapuzados, algemados pelas mãos e pés e isolados em cubículos – e eram enviadas ao setor das grávidas. “Estava grávida de oito meses. Primeiro eles me despiram completamente e checaram minha vagina, olharam meu ânus e começaram a me bater assim, nua como eu estava. Tentei proteger minha barriga o tempo todo e perdi a consciência.” Merita Susana Sequeira sobrevivente da ESMA “Eu, quando estava um dia na cela com os olhos vendados, de repente comecei a sentir meu filho se mover e, para mim, isso foi incrível. Era a vida no meio da morte. Era sentir que havia um lugar que eles não tinham conseguido alcançar.” Ana María Careaga sobrevivente da ESMA “No momento do parto, ela disse 'Não, não cortem o cordão, quero tê-lo comigo uns minutos a mais, senti-lo em cima de mim'. Sabia que iam separá-los e pelo menos ainda estava junto a seu corpo através do cordão umbilical e em cima de seu peito.” Sara Solarz sobrevivente da ESMA
- Buscarita | O Banco de Dados Genéticos
O Banco Nacional de Dados Genéticos é o grande trunfo científico que permitiu às Abuelas a identificação mais precisa e ágil de seus netos apropriados Banco Nacional de Dados Genéticos Criado em 1987, o Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG) tornou-se a principal ferramenta da luta das Abuelas de Plaza de Mayo para encontrar os netos apropriados pela ditadura militar. O órgão hoje incorporado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva da Argentina funcionava inicialmente sob a jurisdição de um hospital de Buenos Aires e utilizava métodos que avaliavam o produto dos genes, e não o DNA em si. Quando o BNDG foi criado, os estudos sobre o DNA ainda eram incipientes, e o Banco incorporou as novas tecnologias conforme elas foram desenvolvidas. A revolução genética produzida pelos cientistas foi criar um método inédito capaz de confirmar vínculos biológicos entre crianças e avós sem a presença dos pais, que estavam desaparecidos: esse era o índice de abuelidad , que foi o primeiro passo para a posterior sedimentação das análises em um banco de dados. Hoje, os geneticistas processam o perfil genético completo de cada amostra que entra no Banco, o que inclui informações sobre o DNA nuclear, DNA mitocondrial e cromossomos sexuais. O objetivo é chegar nos 99,99% de compatibilidade entre as amostras de sangue de pessoas das quais se suspeita que possam ser algum dos netos e dos grupos familiares que têm seus dados cadastrados no Banco. Dezenas de identidades foram recuperadas graças ao trabalho dos cientistas e das Abuelas, que impulsionaram o desenvolvimento de um órgão desse tipo, até hoje inédito em todo o mundo. Argentina na época Nem quatro anos após o fim da ditadura foram necessários até que se criasse o BNDG. Geneticistas, representantes das Abuelas e antropólogos reconhecem a rapidez do processo, que já tinha todos os ingredientes para se consolidar. Esta série de vídeos explica o contexto da criação do Banco. LEIA MAIS A ciência por trás O trabalho do Banco, capaz de mudar a vida das pessoas ao apresentá-las à sua verdade, é sustentado por pesquisadores e geneticistas experientes, que acompanharam estudos genéticos internacionais para aprimorar as técnicas utilizadas nas análises. A expectativa agora é encontrar o neto de número 133. LEIA MAIS Como chegar até o banco Entrevistas, análise de documentação, solicitações judiciais e investigações são alguns dos passos anteriores à realização dos testes genéticos no BNDG, que é a última etapa para confirmar ou descartar o vínculo de uma pessoa com famílias de desaparecidos durante a ditadura. LEIA MAIS VEJA O HISTÓRICO Linha do tempo BNDG