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  • Buscarita | Maternidades clandestinas

    Maternidades clandestinas Como foi possível nascerem crianças nesse lugar? Quem hoje passa pelo número 8151 da Avenida del Libertador, em Buenos Aires, sente que ali há algo a ser notado. Uma atmosfera escondida por trás de muitos prédios que atualmente abrigam organismos e instituições ligadas aos direitos humanos. Um clima carregado de memória, verdade e justiça para os que conhecem ao menos um pouco da história do lugar onde funcionou a antiga Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Foi lá que, entre 1976 e 1983, militares mantiveram presos, torturaram e mataram cerca de 5 mil homens e mulheres. Onde planos de sequestro, extermínio e execução eram traçados e de onde saíam grande parte dos vuelos de la muerte – método de execução adotado pelo regime militar argentino que consistia em jogar, de um avião, homens e mulheres atados a pedras em direção ao mar. Onde bebês nascidos em cativeiro eram separados de suas mães logo após o parto, que encurtava a sobrevida das mulheres que eram parcialmente poupadas para darem à luz. Ana María Martí foi sequestrada em 18 de março de 1977 e passou quase dois anos presa na ESMA, onde esteve submetida a condições subumanas, torturas e trabalho forçado. Recuperou sua liberdade em 15 de dezembro de 1978 e foi uma das testemunhas de julgamentos de crimes cometidos durante a ditadura. Em 2011, durante uma audiência que julgava o Plano Sistemático de Apropriação de Menores, Martí relatou que as grávidas eram mantidas vivas até o momento do parto. “Dentro da área das grávidas começaram a tratá-las muito melhor do que quando estavam na capucha. Comiam melhor, estavam mais limpas, podiam tomar banho.” De acordo com Maria Alicia Milia, que também esteve presa por quase dois anos na ESMA, na capucha, a principal diferença era que as gestantes não usavam capuzes, mas óculos que as permitiam ao menos respirar. Posteriormente receberam colchonetes e camas de metal, mas, assim como as outras detidas, comiam um sanduíche com mate pela manhã, no almoço e no jantar. Apesar dos relatos de melhores tratamentos na área das grávidas, não existia garantia alguma do bem-estar de qualquer um dos presos. Afinal, estavam privados de sua liberdade e sofriam diferentes tipos de violência – quando mantidos vivos. Seja nas maternidades ou não, as mulheres que carregavam seus filhos foram sistematicamente submetidas a abusos, inclusive durante e após os partos, quando seus bebês eram imediatamente retirados de seus cuidados. As maternidades compunham um plano audacioso: o roubo sistemático dos filhos de desaparecidos. BEATRIZ GATTI BEATRIZ GATTI Esses bebês nunca mais veriam suas mães, mas a maioria deles também seria privada de uma vida inteira com suas famílias, irmãos, avós, tios e primos. Permanentemente separados. É essa a história da ESMA, um dos maiores e piores centros de detenção, tortura e extermínio registrados durante a ditadura militar argentina. Mas não o único. Também entre 1976 e 1983, espalhados por todo o país funcionaram outros 761 centros clandestinos dedicados à tortura e execução de militantes, estudantes, jornalistas, professores, religiosos e quaisquer outros enquadrados como “subversivos”. Equipes especializadas atuavam em locais nada preparados para operar uma parte importante do maquinário do regime: as maternidades clandestinas. Elas funcionavam em centros de detenção estratégicos para onde eram levadas cerca de 10% de todas as mulheres sequestradas, que estavam grávidas no momento da captura, de acordo com o relatório final da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep). Segundo depoimentos de alguns sobreviventes que testemunharam as condições da maternidade na ESMA, as gestantes recebiam melhor tratamento quando saíam da capucha – local em que os prisioneiros ficavam encapuzados, algemados pelas mãos e pés e isolados em cubículos – e eram enviadas ao setor das grávidas. “Estava grávida de oito meses. Primeiro eles me despiram completamente e checaram minha vagina, olharam meu ânus e começaram a me bater assim, nua como eu estava. Tentei proteger minha barriga o tempo todo e perdi a consciência.” Merita Susana Sequeira sobrevivente da ESMA “Eu, quando estava um dia na cela com os olhos vendados, de repente comecei a sentir meu filho se mover e, para mim, isso foi incrível. Era a vida no meio da morte. Era sentir que havia um lugar que eles não tinham conseguido alcançar.” Ana María Careaga sobrevivente da ESMA “No momento do parto, ela disse 'Não, não cortem o cordão, quero tê-lo comigo uns minutos a mais, senti-lo em cima de mim'. Sabia que iam separá-los e pelo menos ainda estava junto a seu corpo através do cordão umbilical e em cima de seu peito.” Sara Solarz sobrevivente da ESMA

  • Buscarita | Mais

    Sobre o site Buscarita é o produto final do trabalho de conclusão de curso de Beatriz Gatti de Castro pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), concluído em novembro de 2022 sob a orientação da prof.ª dr.ª Rosana de Lima Soares. ​ O site utiliza informações de 13 entrevistas realizadas em agosto de 2022 em Buenos Aires, Argentina, além de material bibliográfico referente às Abuelas de Plaza de Mayo e ao Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), bem como informações do Museo Sitio de Memoria ESMA, do Parque de la Memoria, da Casa por la Identidad e do Archivo das Abuelas. A lista de livros, filmes e documentos consultados durante a produção do projeto pode ser acessada na aba Sobre o tema . ​ Sobre a autora Beatriz Gatti é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Trabalhou na produção do podcast Politiquês - Uma crise chamada Brasil, do Nexo Jornal, e como estagiária de redação na editoria Ponto Futuro, do mesmo veículo. Antes, passou pela equipe de comunicação digital da Fundação Osesp e pelas redações das revistas Galileu e Casa e Jardim. Na ECA-USP, foi presidente da Jornalismo Júnior, empresa júnior da universidade, em 2018. ​ Entrou em contato com o tema do BNDG em abril de 2021, quando descobriu a solução científica que as Abuelas de Plaza de Mayo haviam criado para encontrar os netos desaparecidos durante a ditadura militar argentina. A partir de então, resolveu aprofundar-se no tema e transformá-lo em objeto de seu projeto de conclusão de curso. Quem é Buscarita? Saiba mais sobre a mulher que inspirou o nome do site. Como ajudar as Abuelas de Plaza de Mayo Clique aqui . Fique à vontade para me contatar pelo e-mail beatrizgatti.c@gmail.com ou para compartilhar quaisquer comentários comigo através do campo abaixo . Envie um comentário para mim Nome E-mail Mensagem Enviar Obrigada pela mensagem. Obrigada pelo acesso!

  • Buscarita | As 'apropriações'

    As 'apropriações' O que fizeram com os filhos dos desaparecidos? É sua primeira vez aqui. Por isso, tudo é novo: os cheiros, os sons, as luzes. Em poucos segundos, saiu de seu maior conforto para experimentar todos os sentidos possíveis. Sem caminho de volta, veio ao mundo. E agora? Apropriação como parte do plano Os bebês nascidos em cativeiro durante a ditadura militar na Argentina (1976-1983) foram privados de sua liberdade desde o parto. Foram retirados dos braços das mães, às quais se dizia que logo seriam devolvidos a elas ou levados aos cuidados de suas famílias. Isso aconteceu raras vezes. “A norma era outra. Após parirem sob condições subumanas, as mães eram transferidas [para a execução] e as crianças eram apropriadas ou inseridas em um circuito, que costumo denominar jurídico-burocrático, composto por creches, tribunais e equipes particulares de adoção”, diz Carla Villalta, coordenadora da equipe de Antropologia Política e Jurídica da Universidade de Buenos Aires (UBA). O que significa ser apropriado? Apropiación é um termo em espanhol cunhado pela equipe de advogados das Abuelas de Plaza de Mayo para definir o processo de roubo de filhos de desaparecidos que foram retirados de suas famílias e entregues a outras pessoas. Neste site, os neologismos em português “apropriação”, “apropriado” e “apropriar” referem-se aos conceitos de apropiación , apropiado e apropiar . Conceitualmente, a apropriação restringe-se ao período histórico da ditadura na Argentina, ou seja, entre 1976 e 1983. “Basicamente está ligada à ideia de perpetuar o desaparecimento dos pais, limpar todos os rastros, substituir a identidade e apagar a origem”, explica a pesquisadora da UBA. Nos centros clandestinos, mantinha-se propositalmente as gestações como parte do Processo de Reorganização Nacional, pelo qual os militares pretendiam exterminar os subversivos. Segundo o discurso que dominava entre as forças armadas, uma educação correta poderia impedir que os filhos dos desaparecidos também propagassem a subversão. Seria como cortar o mal pela raiz poupando a vida das crianças, embora muitas delas tenham sido assassinadas em ataques militares junto a seus pais. Além de roubar os nascidos em cativeiro, as apropriações incluíam como alvo as crianças pequenas que ficaram sozinhas após a execução dos pais ou até as que também foram levadas aos centros de detenção. “Os apropriadores na Argentina pegavam os filhos de quem eles mesmos haviam assassinado, com a ideia de oferecer uma criação que os convertesse em ‘argentinos de fato e de direitos’”, afirma Armando Kletnicki, psicanalista e chefe de trabalho da Cátedra de Psicologia, Ética e Direitos Humanos da UBA. CHRIS DEVERS/FLICKR Infância sob amarras Acomodo-me em uma poltrona e procuro por Claudia. Ela está no balcão do café já buscando seu pedido e, em poucos minutos, me vê e vem a meu encontro. Ela carrega uma bandeja com um pedaço de bolo e um suco de laranja, além da sutil gentileza de trazer consigo dois copos. Me oferece o suco, eu agradeço, mas digo que não quero. Estou um pouco nervosa, porque ela é a primeira apropriada com quem eu falo. E é um tema delicado. Sugiro que comecemos e ajusto a câmera no tripé e o microfone em cima da mesa. Claudia para de comer o bolo e junta suas mãos sobre os joelhos. Ajeita a postura, e também parece um pouco apreensiva, mas mais pela presença da câmera do que pela minha. Peço a ela que se apresente e faço as primeiras perguntas. Estamos nos conhecendo ali, aos poucos, apesar de estarmos falando muito mais dela do que de mim. E eu já conheço boa parte de sua história. Mas agora é diferente; é Claudia quem me conta as coisas que viveu. É ela quem conta que foi apropriada por um tenente-coronel e sua esposa quando tinha oito meses de idade, em novembro de 1978, embora não se lembre. Viveu toda sua infância sob os cuidados de um membro da inteligência do Exército e durante a ditadura que havia sequestrado e desaparecido com seus pais, Pepe e Gertrudis. É Claudia quem conta que, aos oito meses, foi levada ao centro clandestino Olimpo, a oeste da cidade de Buenos Aires, onde um médico cardiologista falsificou sua certidão de nascimento e, junto a um policial, a entregou a seus apropriadores. Quando pergunto sobre sua criação, ela a caracteriza como ‘estranha’. O tenente-coronel e sua esposa criaram Claudia como filha única em um domo de superproteção – e mentiras. Balançando a cabeça como quem lamenta uma lembrança, ela conta que ouvia em casa que os militares travavam uma guerra contra os subversivos, que queriam impor o comunismo na Argentina. O discurso do militar a quem ela chamava de pai era de que eles haviam salvado o país e agora os subversivos e as “loucas da Praça de Maio” tentavam se vingar. Sempre com uma expressão tranquila – e uma voz que às vezes se eleva somente para se sobrepor aos barulhos do café em que estamos –, Claudia fala sobre seus medos de criança. Perder sua suposta família e acabar sozinha, já que seus apropriadores tinham em torno de 50 anos quando a levaram consigo ainda bebê. Para ela, o que sustentou sua apropriação por tanto tempo – e certamente continua a manter tantas outras por aí – foi a criação de um vínculo de dependência emocional quase inabalável junto aos apropriadores: o medo de perdê-los, decepcioná-los e deixá-los. E, por mais que eu já tivesse lido sobre isso, ouvir diretamente de quem viveu esse fardo na pele é sentir mais de perto os danos que o plano sistemático de apropriação causou em uma geração de argentinos. Eu tinha cinco meses quando uma operação realizada na casa em que vivíamos matou minha mãe e uma família com duas crianças de três e cinco anos. Minha mãe havia me posto em um armário no quarto e foi isso que me protegeu um pouco dos gases e me salvou das balas. Depois de quatro meses no hospital com custódia policial, o juiz de menores, que sabia de tudo desde o início, me entrega a uma família que ele conhecia. Durante todo esse tempo nada foi feito para buscar minha família biológica. Manuel Gonçalves Granada Neto de número 57 restituído pelas Abuelas de Plaza de Mayo A adoção fraudulenta usada como método Não só médicos e militares participaram da execução do plano de roubo de meninos e meninas na Argentina. O processo teve o consentimento de juízes e escrivães de cartórios civis que davam prosseguimento a processos ilegais de adoção, falsificavam registros de nascimento ou simplesmente faziam vista grossa à inconsistência de dados e documentos. Ou seja, em muitos casos era possível suspeitar da origem daquela criança em processo de adoção, mas havia conivência jurídica com o plano dos militares. Segundo as Abuelas de Plaza de Mayo, que receberam cerca de 500 denúncias de casos de apropriação, houve quatro formas de roubo. Muitas crianças foram apropriadas pelos envolvidos ou responsáveis pelo desaparecimento ou morte dos próprios pais ou por cúmplices que atuaram no plano de apropriação. Pessoas que conheciam a origem da criança, mesmo sem estar envolvidas na execução prática dos crimes, também registraram meninas e meninos como filhos próprios a partir da falsificação de nomes e datas de nascimento. E existiram ainda muitos casos de adoção, nos quais nem sempre foi possível confirmar o quanto os pais adotivos sabiam ou tinham condições de suspeitar da origem das crianças. Há os casos de adoções de boa fé, em que a família não escondeu o que sabia dos filhos adotivos e colaborou com as investigações das Abuelas, que procuravam pelos seus netos. Mas mesmo assim o processo é considerado fraudulento; afinal, ninguém encaminhou aquelas crianças para adoção. Elas foram forçadas a enfrentar uma condição que não as contemplava. A grande diferença é que essas crianças foram restituídas às suas verdadeiras identidades tão logo se soube quem eram, como é o caso de Tatiana e Laura Sfiligoy , as primeiras netas restituídas pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Abuelas de Plaza de Mayo e alguns dos netos já recuperados reunidos na sede da associação, incluindo Laura (à esq. do centro da foto, em frente à mesa) e Tatiana Sfiligoy (atrás da menina de branco, na lateral da mesa) ARCHIVO ABUELAS Mecanismos de defesa ​ Para a psicanalista María Elena Domínguez, que atua no Centro de Atenção Psicológica pelo Direito à Identidade, a apropriação está relacionada a forçar papéis e funções parentais que não existem. “O que o apropriador tenta é criar um laço em que considera a criança um objeto, um objeto de seu discurso”, diz ela, que também participa da Cátedra de Psicologia, Ética e Direitos Humanos da UBA. Os efeitos de uma infância apropriada variam de caso a caso. Um deles pode ser a dificuldade de verbalizar e expressar sensações e angústias de um momento traumático. Uma criança pequena que presenciou a execução ou sequestro dos pais e não domina a comunicação verbal vai registrar aquele episódio de alguma forma. “Considerando que as memórias se constroem a partir de uma lógica entre pensamentos e palavras, algo que aconteceu muito precocemente na vida de quem ainda não domina a linguagem fica como uma marca, mas como se fosse uma marca direta no corpo mesmo”, explica o chefe da Cátedra, Armando Kletnicki. Para lidar com episódios traumáticos, dois mecanismos de defesa muito comuns observados na psicologia são o esquecimento e a negação. Domínguez cita o caso de Paula Eva Logares, que foi a primeira neta recuperada com a ajuda da ciência. Os apropriadores da criança a registraram como filha própria e recém-nascida, embora ela já tivesse quase dois anos de idade. “Para viver com os apropriadores, essa menina teve que esquecer aqueles 23 meses vividos até ali. Então, há algo nesse esquecimento que vai contra a imposição de uma outra realidade”, afirma a psicanalista. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ Já a negação pode aparecer de maneira sintomática no futuro, apesar de também ser um método de se proteger diante de traumas. Se um adolescente ou jovem criado e formado por um grupo familiar começa a ser confrontado por provas irrefutáveis de que aquela não é sua família biológica e, pior ainda, que aqueles que o criaram fizeram parte do grupo de repressores que podem ser os assassinos de seus pais biológicos, a primeira opção não é aceitar essas informações. “Se eu tenho duas representações que colidem, eu preciso negar uma para sobreviver. Então, rejeito o que está sendo dito”, afirma Kletnicki. ​ ​ O tempo não se devolve ​ Até que se descubra a verdade a respeito da própria origem, o crime sobre os apropriados continua sendo cometido. A cada dia que se escolhe continuar mentindo para uma criança sobre sua história, os efeitos de uma infância apropriada se expandem, afirmam os psicólogos. “Eles escolheram sustentar isso durante 21 anos da minha vida, dizendo que me amavam, mas, na verdade, protegendo a si mesmos de uma decisão que haviam tomado conscientemente aos 50 anos de idade”. Essa é Claudia Victoria Poblete Hlaczik, neta de número 64 restituída pelas Abuelas de Plaza de Mayo. Além dela, as Abuelas contam até agora 131 casos resolvidos. Isto é, 132 histórias de gestações e crianças que haviam sido escondidas da sociedade e das famílias dos desaparecidos e foram descobertas e encontradas. Restituir é devolver algo ao lugar de onde se tirou e reparar os danos que isso pode ter causado, define Armando Kletnicki. Se alguém rouba um carro e bate com ele, por exemplo, a restituição seria devolver o carro após feitos os consertos de uma batida. Mas como isso seria feito com uma pessoa que teve mais do que bens materiais roubados, teve sua própria história de vida apropriada? “Com as pessoas, não há maneira de voltar atrás como se fossem um objeto que você deixa em um mecânico, arrumam e te devolvem”, diz o psicólogo. “O tempo não se devolve, nem os processos que o tempo formou. Não é possível haver crescido com determinadas experiências e apagar isso e começar de novo do lugar onde deveria ter estado.” Neste site, os termos em português “restituição”, “restituído” e “restituir” referem-se ao conceito de restituición de identidad usado pelas Abuelas de Plaza de Mayo. O psicanalista também se questiona sobre o número de netos ainda não encontrados, que são cerca de 370. O que isso pode dizer em relação às apropriações? Que elas tiveram êxito? Como se em alguns casos, mesmo que sob um contexto de mentiras, crianças tenham sido capazes de se construir como sujeito, e hoje pessoas adultas tenham convicção de que não querem explorar seu passado. Ou seria justamente ao contrário? Como se os adultos de hoje não tenham conseguido se desenvolver suficientemente para chegar a perguntar-se quem são. “Isso seria fruto de uma lógica de criação que os condenou a ser objetos do outro. Mas não temos essa resposta”, afirma Kletnicki. Paula Eva Logares junto à sua avó Elsa Pavón ABUELAS DE PLAZA DE MAYO/Fotografías de años en lucha

  • Buscarita | Quem é Buscarita

    A mulher por trás do nome do site A chilena Buscarita Imperi Roa vive na Argentina há 50 anos. Mudou-se para o país vizinho para viver junto ao filho Pepe, que havia ido para lá em 1971 com o objetivo de fazer um tratamento ortopédico. Durante a adolescência, Pepe sofreu um acidente que o fez perder as duas pernas. Ao chegar no hospital para ver o filho, a primeira coisa que Buscarita ouviu foi: “Mãe, não fique triste nem chore. Eu vou ser a primeira pessoa a correr com pernas ortopédicas”. E lá foi ele, aos 16 anos, em busca do feito na Argentina. Em 28 de novembro de 1978, durante a ditadura militar, Pepe e sua companheira Trudy foram sequestrados em Buenos Aires. A neta de Buscarita, que tinha apenas oito meses, foi junto dos pais até um campo de detenção. Lá, permaneceu por três dias até que um militar a levasse para casa para registrá-la como filha própria. E assim Claudia Poblete Hlaczik foi criada. Na época, Buscarita trabalhava como supervisora da limpeza em um prédio do governo que ficava muito próximo à Praça de Maio, no centro de Buenos Aires. Sem respostas sobre o paradeiro do filho, nora e neta nas muitas delegacias pelas quais passou, Buscarita resolveu um dia se aproximar daquelas mulheres que caminhavam ao redor da praça e, a partir daí, se uniu à luta das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo. Buscarita seguiu em sua busca incessante por anos até que Claudia fosse encontrada e identificada como filha de José Poblete Roa (o Pepe) e Gertrudis Hlaczik (a Trudy), em fevereiro de 2000. A reaproximação entre avó e neta foi lenta, mas a Abuela respeitou o tempo da jovem que havia passado mais de duas décadas acreditando que sua identidade era outra. Um dia, ambas conversavam sentadas e Claudia se levantou, pegou na mão de Buscarita e a fez levantar para que dessem o primeiro abraço. E a neta disse: “Obrigada, vó, por ter me buscado e me dado a chance de conhecer minha verdadeira identidade”. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ Luta, família e trabalho ​ Ao longo dos anos em que buscava por Pepe, Trudy e Claudia, a Abuela chilena tinha que conciliar o trabalho com os cuidados dos outros filhos e da casa, que era muito distante do centro de Buenos Aires. “Para as Abuelas mais pobres era muito mais difícil, porque tínhamos que levantar às 5 da manhã, pegar um trem, vir trabalhar, escapar do trabalho, fazer a ronda da praça e voltar”, conta Buscarita. Depois, ela chegava tarde em casa e deixava prontas as refeições para os filhos comerem no dia seguinte. Da busca coletiva feita pelas Abuelas, Buscarita ganhou muitas companheiras para a vida. “Tínhamos reunião toda semana, depois começamos a tomar um cafezinho, um chá, a rir, a chorar, todas juntas. E assim fomos virando amigas, amigas, amigas”, diz ela. Mesmo depois de encontrar Claudia, Buscarita não deixou de buscar os outros netos apropriados. “Não importava que não fôssemos a avó, encontrar um neto era como reencontrar o nosso. Era uma festa, o recebíamos com todo o amor do mundo”, conta. Hoje em dia, ela é a única avó que continua indo quase todos os dias à casa das Abuelas, em Buenos Aires. A presidenta Estela de Carlotto segue trabalhando de sua casa, em La Plata. Respectivamente de Córdoba e Mar del Plata, Sonia Torres e Ledda Barrero são as outras avós que completam o quarteto que permanece em atividade. Ambas ainda não encontraram os netos ou netas que devem ter nascido durante o cativeiro de suas filhas, mas seguem firmes na luta. Uma vida de buscas Os pais de Buscarita lhe deram um nome que foi premonitório em relação à sua vida. Uma década antes de localizar Claudia, a chilena teve outro reencontro potente. Mas nesse caso era ela quem estava sendo buscada. Um dia, uma colega de escola de Fernando, um de seus filhos, ouviu em uma rádio do Chile que dois irmãos procuravam por uma mulher chamada Buscarita e disse a ele que devia ser sua mãe. Ele respondeu que não podia ser, porque sua mãe não tinha irmãos. A colega, convicta de que não devia haver muitas pessoas chamadas Buscarita pelo mundo, insistiu na informação e convenceu Fernando a entrar em contato com a rádio. Sim, era ela. Aos 50 anos, Buscarita descobriu ter dois irmãos e, enfim, os conheceu. Eles foram separados após a morte dos pais de Buscarita em um acidente de carro. Ela tinha três anos e foi viver com sua avó paterna, enquanto seus irmãos mais velhos – que eram filhos da mãe de Buscarita, mas de outro pai – passaram a morar com a família paterna. A rádio passou o telefone do tio de Fernando, que ligou para ele e ouviu, do outro lado, alguém dizer aos gritos: “Encontrei minha irmãzinha, encontrei minha irmãzinha!”. PAULA SANSONE E VALERIA DRANOVSKY/ANCCOM-UBA Buscarita Roa junto à neta e à bisneta, Claudia Poblete e Guadalupe Álvarez Como é ter um nome que tem tudo a ver com as buscas? ​ Buscarita Roa Sim! Todos me dizem o mesmo. Acontece algo muito estranho comigo, porque Buscarita… o ‘bus’ vem de ‘buscar’. Meus irmãos me buscaram, eu busquei meu filho e minha neta. Então, bem, meu nome faz todo sentido. ​ Buscarita, muito obrigada! ​ Buscarita Roa Não, por favor, obrigada a você pelo que está fazendo. Meu encontro com Buscarita: ternura de avó Demoro para encontrar o número certo, mas não o suficiente para me atrasar. Quando me localizo, toco a campainha e entro. Não à toa chamam a sede da associação de casa das Abuelas. A sensação de casa vem tanto da madeira que resistiu com o passar dos anos quanto da presença calorosa das muitas pessoas que entram e saem pela porta. É terça-feira, dia da reunião semanal do comitê diretor, então aproveito para ficar atenta à chegada dos netos com os quais ainda não consegui marcar entrevistas. Ouço parte da conversa de telefone entre a pessoa que me recebeu e o que deve ser a Buscarita do outro lado da linha. Sou informada de que ela acabou de entrar no táxi, mas que não deve demorar muito pois mora perto dali. Sim, vou conversar com uma Abuela de Plaza de Mayo e não me aguento de animação por dentro, mas tento não deixar transparecer. Quando ela chega, já estou com a câmera posicionada depois de mexer um pouco nas poltronas da sala para ajustar o enquadramento. Depois de me cumprimentar, ela se senta em outra poltrona, então pergunto se ela se incomoda em mudar para a outra, no canto da sala. Ela aceita com simpatia e começamos a entrevista. Fico preocupada em tomar muito de seu tempo e cansá-la (como fiz com o Victor após quase três horas de entrevistas que tiveram de ser divididas entre dois dias). Mas a cada resposta que ela conclui, solta um sorriso que indica estar tudo bem. Depois da última pergunta, agradeço pela entrevista e me levanto para cumprimentá-la com as mãos, o que logo se torna um abraço afetuoso. Com uma ternura bem típica de avós. Saímos da sala, e eu já estou tomada por uma sensação de que meu trabalho está dando certo. Na verdade, ali, depois daquela entrevista, a sensação é de que já deu certo. A conversa de 30 minutos com Buscarita me serve de combustível para seguir firme o ritmo de apuração nos quatro dias que me restam em Buenos Aires. Dos quatro netos com quem combinei de falar, só consegui encontrar-me com uma – que é justamente Claudia, a neta de Buscarita. Mas aproveito a visita à casa das Abuelas para esperar a chegada dos outros membros do comitê diretor que vêm para a reunião. Ainda é cedo, porém; a reunião só começa em duas horas. Espero em uma cadeira ao lado da porta e me atento à dinâmica daquele lugar. A campainha toca, alguém atende e abre a porta de fora e, depois de alguns segundos, também a de dentro. As pessoas que já estão na casa se dividem entre as várias salas e corredores que existem nela, mas ressurgem na sala principal toda vez que alguém chega. Quem entra é recebido com sorrisos e abraços, como se fosse sempre aniversário de alguém. Eles parecem felizes por estarem ali. Em uma dessas vezes, Buscarita reaparece e me vê novamente. Demonstra surpresa por eu ainda estar ali e preocupação por ser hora do almoço e eu ainda não ter comido. Vem até mim, toca no meu ombro e me oferece uma bolacha, um chazinho ou um mate. Sinto como se eu estivesse com a minha avó. Paro para pensar como é possível que aquela senhora, que tem uma faixa de cabelos brancos e um lenço colorido enrolado no pescoço, nunca tenha perdido a ternura apesar das dificuldades da vida, da perda do filho para a ditadura e da apropriação da neta. E lembro-me do que ela disse que a motiva a seguir trabalhando nas Abuelas: o amor. O amor aos filhos, o amor aos netos e o amor à vida, “porque enquanto se estiver vivo, é possível seguir fazendo coisas”.

  • Buscarita | História do BNDG

    Linha do tempo História do BNDG entre 1976 e 2015 Fonte: "Ciencia x la identidad - Historia viva del Banco Nacional de Datos Genéticos" Arte: Mathias Gatti

  • Buscarita | Próxima geração

    Próxima geração ‘Porque não’ não é resposta O Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG) completou seu 35º aniversário em 2022. Desde 1987 tem ajudado as Abuelas de Plaza de Mayo a identificar os netos roubados pela ditadura militar argentina e a devolver a identidade de mais de uma centena de pessoas. A últim a restituição aconteceu em dezembro de 2022. A restituição de identidade nunca é um processo fácil e atravessa gerações, tanto as anteriores quanto as seguintes. E ao mesmo tempo em que o fato de ter filhos pode dificultar a tomada de decisão em torno de dúvidas enterradas, é também justamente a geração descendente que tem potencial para impulsionar a continuidade da luta das Abuelas. Hoje em dia, os netos que as Abuelas ainda buscam devem ter entre 40 e 50 anos. É a geração de pais de crianças, adolescentes e jovens adultos – e é nisso em que investe cada vez mais esforços a instituição das Abuelas de Plaza de Mayo. “Acredito que estejamos em um momento histórico de desafio por já entrarmos em outra geração”, diz Tatiana Sfiligoy, uma das netas recuperadas pelas Abuelas que compõem o comitê diretor da organização. “Muitas vezes os adultos que se apresentam às Abuelas ou à CoNaDI (Comissão Nacional pelo Direito à Identidade) já têm filhos e são eles quem dão tração às buscas, porque fazem perguntas para as quais os pais não têm respostas ou talvez nunca tenham se questionado.” A instituição acredita que a possível insistência por respostas dos bisnetos pode motivar que cada vez mais netos procurem resolver as dúvidas a respeito das origens genealógicas. Segundo María Laura Rodríguez, do departamento de apresentações espontâneas das Abuelas, muitos jovens têm ido até a sede da associação para contar a história da família e compartilhar as suspeitas de que o pai ou a mãe possa ser um dos netos buscados pelas Abuelas. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ Como ainda não há tecnologia para identificar diretamente os bisnetos, a orientação dada por Rodríguez é que os jovens conversem com seus pais para que eles mesmos se apresentem à organização ou à CoNaDI, já que se trata de um processo espontâneo. A confirmação de parentesco entre bisnetos e avós a partir da genética, porém, pode não estar tão distante. De acordo com a cientista do BNDG Florencia Gagliardi, o Banco está empenhado em desenvolver novas técnicas e marcadores de genealogia capazes de identificar bisnetos e até tataranetos das Abuelas. “Pela sua trajetória em genética forense aplicada à identificação humana, equipamentos de última geração e profissionais formados, acredito que o Banco ainda tenha muito potencial dentro do país e para outras causas de direitos humanos pelo mundo”, afirma a chefe da área de DNA mitocondrial. Além do incentivo dados pelos supostos bisnetos, apostar nessa geração apoia-se no fato de que os filhos dos filhos dos desaparecidos não viveram pessoalmente o trauma da apropriação. Ou seja, se eles tiverem dúvidas sobre a origem de sua família, vão poder enfrentar a busca pelas respostas de forma um pouco menos incômoda e, por isso, dar mais apoio aos pais. O BNDG deve existir pelo menos até que se identifique o 500º neto apropriado durante a ditadura militar. “O Banco nos dá a segurança e a tranquilidade de que, mesmo quando nós não estejamos mais aqui e todas as Abuelas se forem, ele continuará firme para dar respostas sobre a história dos argentinos”, acredita Claudia Poblete Hlaczik, neta da Abuela Buscarita Roa e também membro do comitê diretor da instituição. Por enquanto, cabe aos netos já restituídos e filhos de desaparecidos garantir que o trabalho feito pelas Abuelas se mantenha firme e siga em frente, além de se empenhar na manutenção da memória histórica da ditadura e da instituição. “Há Madres e Abuelas que, em suas cadeiras de rodas e com suas bengalas, continuam vindo, estando presentes e pressionando o Estado e a justiça”, diz Lorena Battistiol Colayago, que busca um irmão ou irmã nascido durante o cativeiro de sua mãe. “Se essas mulheres de 90 anos se levantam todas as manhãs e saem para lutar, não nos resta outra opção a não ser acompanhá-las e seguir seu trabalho. É um compromisso moral”, afirma ela, que é diretora nacional de espaços de memória da Secretaria de Direitos Humanos da Argentina.

  • Buscarita | Trajetória das Abuelas de Plaza de Mayo

    Trajetória Quem são elas Já desde antes da ditadura militar argentina, que teve seu início em 24 de março de 1976, homens e mulheres desapareciam. Às vezes porque eram militantes que fugiam para não ser pegos, e muitas vezes porque eram sequestrados pela Aliança Anticomunista Argentina (Triple A) ou pelos próprios militares. Com o início da ditadura, rapidamente passaram a ser milhares os pais, tios e tias, irmãos e irmãs e filhos e filhas que não voltavam para casa. Mas, dessa vez, as mães sabiam que eles não estavam se escondendo: tinham sido levados. Movidas pelo amor e pela angústia de não ter informações sobre o paradeiro de seus filhos, muitas mães começaram a ir a delegacias, onde ninguém lhes respondia sobre o que poderia ter acontecido com eles. Iam a hospitais, quartéis, igrejas e tribunais, e ninguém dizia nada. Até esse momento, porém, ainda não estavam organizadas. Foi justamente a partir de encontros recorrentes nesses lugares que elas se conheceram e perceberam que aquela luta não teria frutos se fosse individual: tinham que se unir e atuar coletivamente. Como nenhum órgão público dava respostas sobre seus filhos – e muito menos agia para procurá-los –, as mães passaram a ir à Praça de Maio, em Buenos Aires, onde fica localizada a Casa Rosada, sede do governo nacional. À espera de informações, sentaram-se em frente à estátua de Belgrano, mas logo um policial as obrigou a circular, argumentando que o estado de sítio não permitia que permanecessem ali. Então, cumpriram a ordem e começaram a circular, mas ao redor da estátua. Daquele dia em diante, toda semana se reuniriam para fazer rondas em torno do monumento de bronze. Por isso, se tornaram as Madres de Plaza de Mayo – ou Mães da Praça de Maio –, associação criada em abril de 1977. Em 1º de outubro de 1977, as Madres decidiram se unir à peregrinação católica à cidade de Luján, que reunia milhares de argentinos anualmente. Na ocasião, elas pretendiam divulgar sua luta e, para isso, decidiram criar uma forma que as identificasse em meio à multidão. Algumas sugestões foram dadas até que alguém disse: "E que tal colocarmos uma fralda na cabeça? Todas temos uma fralda de pano dos meninos em casa". ​ Então, cada uma das mães amarrou um lenço branco na cabeça. Elas chegaram a ser confundidas com freiras, mas logo aquelas fraldas de pano se tornariam o maior símbolo da luta das Madres de Plaza de Mayo. ​ ​ A cada quinta-feira – dia escolhido para as rondas –, somavam-se mais mulheres à luta. Até que um dia uma delas se afastou para perguntar às outras se mais alguém estava procurando por uma filha ou nora grávida ou até por algum de seus netos. E uma a uma foram se apresentando. A partir daí, elas se deram conta de que também precisavam buscar os filhos dos filhos e se organizar para isso. Na semana seguinte, em outubro de 1977, um grupo de 12 mulheres se reuniu para definir os primeiros passos da organização cuja luta segue até hoje. Naquele momento autodenominadas Abuelas Argentinas con Nietitos Desaparecidos, logo adotaram o nome dado a elas pela mídia internacional: Abuelas de Plaza de Mayo, cujo slogan era “buscar aos netos sem esquecer dos filhos”. Registro da tomada do poder pelos militares em 1976 (Eduardo Di Baia/Archivo AP) Fila de pessoas em busca de informações sobre desaparecidos (Jorge Sanjurjo/Archivo Crónica) Mães mostram fotos de seus filhos À direita, Raquel Marizcurrena, uma das fundadoras das Abuelas de Plaza de Mayo (Archivo Abuelas) Faixa de Madres e Abuelas em protesto (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) As rondas das Madres e Abuelas (Archivo General de la Nación) Estela de Carlotto (centro) e Rosa Roisinblit (esquerda) (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) Madres e Abuelas exigem aparição de filhos e netos com vida (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) (Archivo de Abuelas de Plaza de Mayo) “Os militares nos subestimavam por sermos mulheres. Diziam: 'Deixem-nas para lá. Essas loucas vão se cansar'. Isso não aconteceu e não só não paramos de caminhar como construímos todo um espaço de busca.” Estela Barnes de Carlotto presidenta das Abuelas de Plaza de Mayo DANIEL GARCIA/AFP

  • Buscarita | O plano dos militares

    O plano dos militares Na Argentina, um golpe de Estado dado em 24 de março de 1976 colocou os militares no poder para pôr em prática o Processo de Reorganização Nacional, por meio do qual pretendiam combater a 'subversão' e o 'populismo'. ​ Estima-se que em oito anos de ditadura militar (1976-1983), 30 mil pessoas tenham desaparecido. As Abuelas de Plaza de Mayo calculam cerca de 500 casos de crianças pequenas ou recém-nascidas que foram separadas de suas famílias e criadas por pessoas com as quais não tinham nenhum vínculo biológico. ​ Era comum que mulheres grávidas mantidas em algum dos muitos centros de detenção e tortura tivessem seus filhos levados, logo após o parto, para a casa de algum militar ou de conhecidos de alguém que participava do esquema. Esse processo fez parte de um plano sistemático de roubo de crianças que foi definido pelas Abuelas como apropiación. Maternidades clandestinas LEIA MAIS LEIA MAIS As 'apropriações'

  • Buscarita | Os netos

    Os netos Até agora, 132 casos de apropriação de crianças foram resolvidos pelas Abuelas e com o auxílio da CoNaDI e do BNDG Guillermo, Manuel, Tatiana e Claudia são exemplos de apropriados que reencontraram suas famílias após anos de busca – sejam dois ou 29 anos depois Conheça as histórias Conhecer a verdade Parte dos netos encontrados foi localizada pelas Abuelas, enquanto outros acabaram sendo identificados por iniciativa própria, ou seja, eram pessoas que tinham dúvidas sobre a própria origem e foram atrás da resposta para confirmar se eram filhos de desaparecidos da ditadura militar. Independentemente do início deste trajeto, o processo de busca pela identidade é quase sempre acompanhado por intensas sensações e receios. Um resultado negativo do BNDG significa muitas vezes uma porta fechada diante do difícil processo de ir atrás da sua origem. Já uma resposta positiva quanto à análise genética, embora traga a verdade, pode ser também doloroso para quem descobre não ter vínculos biológicos com a família com quem viveu durante toda a vida. ​ Há ainda quem seja contra a existência do Banco (e até das Abuelas) e argumente que as restituições geram novos traumas nas pessoas que já foram crianças traumatizadas. Mas, segundo a psicologia, não existe base para assegurar essa ideia, que surgiu a partir de uma comparação equivocada de uma renomada psicanalista francesa. ​ ​ ​ ​ Ainda desaparecidos Ter 13 2 netos restituídos significa que ainda há cerca de 370 casos por resolver. Quando as Abuelas se organizaram, elas entenderam que a luta teria de ser coletiva para dar frutos – a partir daí, o reencontro com cada neto passou a ser comemorado como se fosse com o próprio. ​ A busca incessante tem seus obstáculos, porém. Altos e baixos permeiam o processo que se estende por décadas até hoje. Mas os familiares de desaparecidos seguem firmes à procura das meninas e meninos apropriados durante a ditadura e que hoje devem ser adultos de 40 a 50 anos de idade. ​ Próxima geração O BNDG vislumbra também uma tecnologia capaz de identificar os bisnetos para acelerar a restituição dos netos. Localizando seus filhos, que são netos dos desaparecidos, automaticamente mais casos de apropriação seriam resolvidos. O método ainda está em vias de desenvolvimento e deve demorar um pouco, mas o papel dos bisnetos vai muito além da extração de amostras de sangue. ​ Sem ter enfrentado o trauma da apropriação pessoalmente, os bisnetos podem apoiar seus pais na busca pela própria identidade e incentivar que eles procurem resolver as questões para as quais não têm as respostas. LEIA MAIS LEIA MAIS LEIA MAIS

  • Buscarita | Como ajudar

    Como ajudar Se você tem motivos para suspeitar que possa ser um dos netos buscados pelas Abuelas, basta entrar em contato com elas através do site abuelas.org.ar ou enviar um e-mail para abuelas@abuelas.org.ar . Se você conhece alguém que possa ter nascido na Argentina e tenha dúvidas sobre sua identidade, o endereço denuncias@abuelas.org.ar está disponível para receber mais informações. O formulário abaixo serve também como ponte de contato até as Abuelas. Sinta-se à vontade para compartilhar quaisquer informações, inclusive de forma anônima. ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ Se você não duvida da própria identidade nem conhece alguém que possa ser um dos netos das Abuelas, mas tem interesse em ajudá-las, você pode contribuir divulgando sua luta e ampliando o alcance das buscas. Confira mais informações sobre o trabalho delas no site institucional e nas redes sociais, principalmente o Instagram , onde as novas campanhas são amplamente difundidas. Seu nome Seu e-mail Mensagem Enviar Obrigada pela mensagem. Não é fácil que te digam que você não é filha ou filho de fulano. Mas não há nada melhor do que a verdade. Nós trabalhamos pela verdade e pela justiça. Por isso, a todas as pessoas que têm dúvidas sobre sua identidade: venham às Abuelas, conversem conosco; nós temos equipes especializadas de cientistas, psicólogos e advogados, ou seja, todos capacitados para que as pessoas com dúvidas possam se encontrar. Buscarita Roa , Abuela de Plaza de Mayo

Projeto de conclusão de curso de Beatriz Gatti para a obtenção do diploma de bacharelado

em jornalismo pela ECA-USP, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Rosana de Lima Soares.

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